Tudo começa com dois estranhos e um apartamento. Caminhos que se cruzam para construir a intimidade possível. Tem sido assim a vida de Raquel André nos últimos dois anos: coleccionar pessoas. Já soma 108 amantes (calma, no sentido figurado) e 13 histórias com quem partilha a obsessão pelo coleccionismo.

Estão a ver: o bossanova põe açúcar, o samba arredonda as palavras, ao fim de um tempo instala-se o português suave da Globo. Raquel André vive entre Portugal e o Brasil desde 2011, tinha 24 anos de idade – e o sotaque não a deixa mentir. O coração também não: “Saíres da Europa dá-te uma consciência política, cultural e social do mundo. E influencia todo o meu trabalho. Tenho uma família afectiva lá”, diz-nos a actriz, performer e produtora responsável pelos espectáculos Colecção de Amantes e O Segredo de Simónides – Colecção de Coleccionadores, que se baseiam nos momentos vividos a sós com desconhecidos, desde 2014, no Rio de Janeiro, Lisboa, Ponta Delgada, Loulé e Minde. No primeiro mostra fotografias, no segundo utiliza vídeos e objectos.

É uma colecção e uma metodologia de trabalho, um corpo mutante e um laboratório, um espectáculo artístico e uma experiência social, é um documento, a desafiar os limites entre a realidade e a ficção, é a vida a acontecer. Se lhe perguntarem, não vai dizer-vos que é actriz. Provavelmente, responde coleccionadora.

Da Colecção de Amantes, Raquel André acumula seis mil fotografias – como podem imaginar, vão do rotineiro ao erótico. “Decidi criar uma colecção de origem, em vez de pegar numa colecção pré-existente. E pensei: o que é que eu quero guardar? O que há de mais obsessivo em mim como impulso de querer ter, de guardar? E cheguei à conclusão que o mais difícil de guardar é o efémero. E para mim o auge do efémero é o outro, somos nós, sempre em mutação. Mais ainda: duas pessoas. E mais ainda: a intimidade entre duas pessoas”, explica-nos.

Em criança, havia uma agenda de contactos. “E eu em vez de pôr os números de telefone das pessoas punha uma descrição da pessoa que tinha conhecido naquele dia. Depois voltava lá e fazia actualizações”, diz a rapariga que cresceu entre as linhas amarela e azul do metropolitano de Lisboa, entre Caneças e a Escola Superior de Teatro e Cinema, que já cantou uma música com o Valete, que já andou pela Malaposta, a televisão, o grande ecrã, as criações conjuntas com Tiago Cadete, a Cia dos Atores no Rio de Janeiro e as produções de Bel Garcia e o Galpão Gamboa de César Augusto, também do lado de lá do Atlântico.

Por volta de 2009, chegou-lhe às mãos um caixote de cartas, correspondência entre Portugal e a Bolívia, dos anos 70, 80 e 90. “Imagina 650 cartas com aquelas risquinhas do correio aéreo”. Em vez de acabarem no lixo, tornaram-se a matéria-prima da sua primeira criação.

Seguiu-se, já no Brasil, um trabalho sobre o catálogo de últimas palavras de pessoas famosas. E outro sobre descobertas. Até que, porque “não conseguia perceber como construir narrativa e história a partir das colecções”, ou seja, ir além da estética, do visual, do plástico, decide inscrever-se no Mestrado sobre Colecionismo nas Artes Performativas no Programa de Pós-Graduação de Artes da Cena da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação de Eleonora Fabião, com Bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

Imagem de Diogo Lima

Imagem de Diogo Lima

No primeiro encontro para a Colecção de Amantes, na cidade carioca, combinou com um português ir a casa dele e tirar uma fotografia como se morasse lá. A ideia era ficcionar a intimidade, por uma hora, e capturar o momento numa fotografia, como prova dessa intimidade construída. Ficou 16 horas. “Não sei quem vai aparecer, como vai ser o encontro, nunca é confortável, é muito desgastante, mas estimulante”, descreve. Como a tensão entre amantes, o amor proibido, aqueles que queremos amar, mas não podemos. Como um quarto escuro onde entramos para jogar, sem saber o que vai acontecer.

A menina de Caneças chegou ao Brasil para uma residência artística de cinco meses, mas foi ficando. E “sozinha, a um oceano de distância”, descobriu que “a intimidade é diferente de pessoa para pessoa”.

A Colecção de Amantes estreou em 2015, co-produzida pelo Teatro Nacional D.Maria II e o TEMPO Festival das Artes do Rio de Janeiro. Em palco, a colecção peculiar revela-se: narrativas reais e ficcionadas. Fotografias e relatos. Afinal, o que se procura quando se encontra alguém? Em 2017 sai o primeiro livro e o projecto tem duração prevista até 2024 – uma década certinha.

A nova produção, em cena desde Outubro, O Segredo de Simónides – Colecção de Coleccionadores, que beneficia da bolsa de criação Isabel Alves Costa, continua a explorar a metodologia. Raquel André colecciona os próprios coleccionadores, pede-lhes que lhe contem um segredo, que se deixem coleccionar.

Eles e elas coleccionam cromos, vinis, camélias, cartas do ultramar, action figures, perfumes em miniatura, livros de inteligência emocional, whatever. Um espectáculo co-criado com Bernardo Almeida e António Pedro Lopes e com o documentarista e realizador Diogo Lima. A música é de David Santos (Noiserv). Em vez da fotografia, há vídeos e objectos, mas os coleccionadores nunca são apresentados ao público.

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“Basicamente , os dois espectáculos são sobre a impossibilidade de coleccionar pessoas”, resume a actriz para quem o éfemero é um tesouro.

Até 27 de Novembro, todos os dias (ou noites) de quinta-feira a domingo, a Colecção de Coleccionadores está em palco em Monção, Vila Nova de Cerveira e Valença, por esta ordem. Entretanto, até 2020, Raquel André integra o projecto APAP – Advancing Performing Arts Project, uma plataforma de artistas e programadores de 11 países da União Europeia. O que também é fixe.

Onde tudo isto vai acabar, ninguém sabe. Nem ela própria. Como é que um projecto artístico cria uma oportunidade de as pessoas se abrirem e contarem a sua história? “Está claro para mim que o coleccionismo é uma metodologia de criação artística”, salienta Raquel André. E em todas as colecções, mesmo as colecções de selos e moedas, “há um impulso, um signficado que muitas vezes não é consciente”, acredita. “A partir dos teus objectos consegues contar a tua história. Uma colecção é uma forma de te revelares. A partir de coisas pequenas e preciosas”.