Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Andreia Azevedo Moreira
Ilustração: Lisa Teles

“Alice vem deitar-te.”

Frederik chamava-a pela quarta vez. O tom paciente fora substituído pela irritação. Alice Farlow escrevia as entranhas. Quatro e meia da madrugada e premia as teclas do computador convicta do alívio.

“Já vou querido. Está quase. Mais uma palavra e termino.”

“Uma palavra…” Rosnou Frederik, enterrando-se nos lençóis. Desde que a mulher engravidara pouco mais havia a fazer a seu lado, na cama, do que dormir. Cansara-se da procura frustrada. Tratava-se de uma fase e, apesar de subtil, Alice mostrava-se implacável na recusa. Escrevera a palavra “vazio” e regressara para perto dele, pouco tempo antes de o despertador tocar. Frederik dormia um sono pesado quando ela, antes de se deitar a seu lado, o beijou com ternura. Acomodou-se de barriga para cima com as mãos no peito. Estava inquieta. Não fora benigna a escrita. Não admitia ser doente perante os outros e nessa categoria também incluía o marido. Para o autodiagnóstico contribuíra a formação em medicina que a não deixava iludir-se: Hipergrafia. Desconhecia, no entanto, ser estéril qualquer esforço de criação. Nenhuma ideia seria transmitida na catarse. Da ignorância alimentava o desassossego, crente que o resultado seria a obra perfeita. Aquela em que cada caractere é legítimo. Fitava o escuro por cima de si e à sua volta. Os pensamentos sucedendo-se:

Eis a vida sem palavras: Escuridão. Amo Frederik, mas se não lho pudesse dizer… Se não lhe conseguisse sussurrar “Amo-te” quando lhe lambo a orelha antes de fodermos, seria como se o não amasse. Sinto pena dos mudos. O meu marido ficaria indignado se suspeitasse que quando crê que faço amor com ele, o estou a foder. Se disser “fazer amor” diluo o acto. Quanta solidez… Não se trata de indecência. É pujança. Não me compreenderia. Vê-me como uma coisa branda da qual se apossa quando lhe dá a fome antes de dormir, ou pela manhã ainda o nosso hálito se encontra imperfeito da respiração nocturna. Por isso, por ele, lhe segredo, quando decido dizê-lo: “Faz amor comigo.” Nada espera das mulheres que aluga. A mim exige candura. Cansa-me essa ingenuidade. Pois se somos animais.

Simula a sua caligrafia com o indicador no ar: “animais”. Força o fecho dos olhos, como numa prece, para memorizar o termo que daí a umas horas anotará onde calhar. São essas as preocupações que a impedem de dormir, na maior parte das madrugadas. Palavras desgarradas que não pode esquecer nem deixar de registar, assim que lhe seja possível. Habituou-se à insónia, embora tema prejudicar os fetos.

Afastamo-nos da irracionalidade porque criámos a linguagem. Nos momentos em que a mais visceral das lutas se trava, tanto os significados como a consciência são esquecidos. Somos criaturas movidas pelo instinto. Pele, carne, violência e prazer. Por vezes, sangue. Fresco. Pisado. Farejamos cheiros que nos impelem comportamentos que o pensamento e a moral condenariam. Julga-me “melhor” do que as prostitutas, o meu bom Frederik. Vê-me impoluta. Tenho-lhe dito, com o olhar, o contrário. Sou como os restantes, um sedento animal. – Desenha “sedento” na barriga. – Juntar sedento a animais. Acrescentar a palavra “putas”, combiná-las com “ingenuidade”. Será que me esqueço? Não posso! “Animais; Sedento; Ingenuidade; Frederik; Alice; Escuridão; Palavras; Putas.” Levanto-me, escrevo e regresso. Durmo duas horas, pelo menos. Acrescentar horas! Direi algum dia tudo o que preciso num vocábulo? Tenho de descansar.

Alice encolhia-se com as dores do estômago contraído pela náusea. A angústia alojara-se na garganta. Talvez fosse apenas fome. Não se recordava do que tinha jantado, nem a que horas. Levantar-se-ia uma vez mais, nessa noite, com cuidado para não acordar o companheiro e fixaria as tiranas palavras, enquanto a urgência pingava sobre a mesa da cozinha. Grávida, a psicose agravara-se. Não eram só as noites sem sono em frente ao computador. Escrevinhava em todo o lado. No pacote de açúcar, depois de o esvaziar no café; no interior da sua bata branca de médica, garatujado; no papel higiénico escurecido com parágrafos intermináveis. Chegara a dar-se o caso de, não tendo quantidade de papel suficiente para escrever e se limpar, ter optado pela escrita desdenhando as consequências. Qualquer roupa que usasse tinha bolsos e nesses havia sempre, no mínimo, duas esferográficas. Admitia que lhe faltasse qualquer outra coisa. Inconcebível seria não conseguir apontar os pensamentos brilhantes. Frederik alertava-a, há anos, que tudo o que fazia se resumia a frases incoerentes. Nada no seu insano comportamento seria digno de publicação. Revelava-se cruel para que ela o considerasse. Procurava poupá-la ao sofrimento de o ouvir por outra pessoa.

“Canaliza essa energia desregrada para outros fins, Alice! Procura uma ocupação que te realize e onde consigas ser competente.”

Agora que ela ia ser mãe estava certo de que seria excelente para os filhos.

“Porque não te dedicas ao quarto dos bebés? Ainda não te vi fazer algo que fosse, para preparar a chegada deles. Decora-o como quiseres. Compra roupinhas para os meninos. Sê como as outras mulheres, Alice. Sê como todas! Não compliques. Se quiseres, meu amor, conta-me as tuas ideias e eu escrevo por ti aquilo que quiseste dizer durante este tempo e não foste capaz. Nunca passarás de uma escritora medíocre. Pior, não és escritora. É para teu bem que to digo.”

Alice arrogante e agressiva fazia pouco dele, nessas alturas. Humilhava-o gélida.

“O que separa o teu êxito da ausência do meu, é um órgão sexual destinado à queda. Ao fracasso.”

Desprovida de qualquer consciência da sua inépcia para o ofício que cria aprimorar, de cada vez que empunhava uma caneta, ou digitava no computador. O marido condoía-se por perceber a desconfiança dela, julgando-o despeitado. Dissera-lhe, todo desespero, que desse a ler os seus escritos a terceiros para que esses, isentos, lhe repetissem o que tentava provar-lhe há anos.

“Quando os reescrever.» Retorquia. «Não tenho tido tempo. Sabes perfeitamente que ninguém, além de ti, me lerá primeiras versões.”

“Hipergrafia, Alice. Já o estudaste, sabes o que é. H I P E R G R A F I A Soletrou. Tens de te tratar Lili. Ouve-me, por favor.”

Alice sabia ao que Frederik se referia. Recusava-se, porém, a aceitar aquela fatalidade de a doença só produzir dor e ausências.

“Estou no limite, porra! Ouves? Como é que pretendes criar o Edward e o Kurt?”

Estacava focando-se no ventre aumentado que acusava o término da gestação.

“Haverá momentos meus. Como hoje. Continuará a ser assim. Nem tu, nem os gémeos me vão privar deles.”

Frederik atormentava-se com o futuro adivinhado tão mais tortuoso quanto a crescente irascibilidade da mulher. Tornava-se penoso dizer-lhe que ela, enquanto autora, não prestava. Sentia a agressão como se lho dissessem de si e da sua obra. Todavia, desejava que a vida tomasse rumo autêntico e que ela se concentrasse na maternidade. Alice exprimia-se de forma pueril, dando erros ortográficos e gramaticais graves. Inadmissíveis para as suas aspirações. Ele chorava desconsolado o infortúnio de ambos. Esgotara os argumentos dissuasores.

Decidiu enviar alguns exemplares das narrativas da mulher a um editor, seu amigo. Queria que ela se certificasse que o que ele lhe dizia não se tratava de insegurança sua, antes de amor. Tentava protegê-la da pancada que se leva nas rejeições. O Editor, Frank Black, demorou poucos dias a analisá-los. A resposta foi peremptória. Vira-se perante revelação de grande qualidade. Aquela pessoa teria a capacidade de transmitir o que havia sido dito muitas vezes, antes de si, numa voz que soava diferente. Poderia mapear, sem dificuldade, as leituras que a suportavam. Afigurava-se, contudo, que a estrada paralela às linhas dos Mestres, havia sido encontrada sem grande dificuldade. Encerrava uma naturalidade intrínseca. Frederik incrédulo. Segurava na missiva do amigo com as mãos inseguras de quem carrega uma péssima notícia. Remeteu, então, escritos seus. Não identificou o autor em nenhum dos envios. O amigo arrasou as suas histórias, apontando-lhes algumas das falhas que ele atribuía ao trabalho da mulher. Aterrado releu inúmeras vezes a escrita de Alice e a sua. Incapaz de ver o mesmo que o amigo, considerou estar louco. Voltou a olhar para as cartas de resposta confirmando que Alice era talentosa e ele sofrível. Enviou os mesmos textos a mais quatro pessoas da área, entre amigos e conhecidos. As respostas coincidiram, no essencial. Chorou. Sentiu-se perdido. Interrogou-se à exaustão. Repensou a existência enquanto escritor. Não se rendeu. Queimou as cartas. Arrumou as criações de ambos nos lugares. Retomou o quotidiano doméstico. As discussões atingiram a intensidade de manifestações na rua. Combativo nas tentativas de dissuadir Alice da sua “arte”. Sem remorso.

Naquela manhã viu-a despir-se para tomar banho. Escondera-lhe os lápis de cera com que ela adorava escrever nos azulejos. Esperava ouvir-lhe a raiva nos gritos, nos impropérios. Durante vinte minutos o silêncio fora ensurdecedor. Não fosse a água continuar a cair irregularmente, interrompida pelo corpo de Alice e pelos seus movimentos e Frederik sozinho. Sentou-se sobre o tampo fechado da sanita verde, encarando o cortinado opaco com os olhos mortiços. Não ousou chamá-la. Aguardou. Pela primeira vez tinha agido de maneira concreta para a impedir do delírio. Iniciara, nesse dia, a derradeira oposição. Não mais seria benevolente, ou permissivo. Ela abriu a cortina. Frederik olhou para os seios antes de qualquer outra parte do corpo. Era o que mais gostava nela. Horrorizado, observou-a coberta de sangue. Alice utilizara a lâmina da sua gillette na barriga.

(HELP)