Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Clara Vales
Ilustração: João Pedro Coutinho

Nesse dia disseste-me algo. “Porta-te bem!” Inquietou-me. Deixou-me estranhamente feliz. Não sei. Algo que não vi nas centenas de mensagens telegráficas que trocámos antes. E ali, justo ali, fiquei atenta. Estou certa que tu também o sentiste ali. Ali mesmo. Naquele momento. Negaste-o, como o neguei tantas vezes. Tentaste nem ligar. Oh! Eu sei! Mas, qual ressonância, foi alimentando os nossos dias, preenchendo tantas quantas noites em que a distância não parecia existir.

Não sei como dizer-te isto… mas adoro o que temos, não tendo. Gostaria de encontrar forma indolor de te dizer que tudo isto é perfeito. Tudo! Como sonhamos acordados antecipando o toque das nossas bocas e a união dos nossos corpos. Como dormimos abraçados em camas separadas. Como caminhamos lado a lado, de mãos dadas, sem nos tocarmos. Como partilhamos conquistas e amenizamos dores e perdas. Como nos queremos, não querendo. Como a vida nos faz tangentes, em lugares comuns. Ai! A magia desses jardins que comungamos. E a voz! Essa tua voz! Que ecoa imaginada e longínqua entre o dedilhar dos teclados. Os sorrisos de bom dia. Os beijos agridoces. O calor do inusitado em noites frias de inverno. As lembranças em dias apressados. Os corações acelerados logo pela madrugada. A calmia do fim do dia. Os cansaços da rotina que ali, justo ali, não existe. Tudo somos nós. Tudo! Somos o que poderia ser.

Faz hoje 1000 dias que entraste na minha vida, não entrando. E nela permaneces, não permanecendo. Contra todas as impossibilidades e todos os imprevistos. Caminhos paralelos que não se tocam, mas se tocam tanto. Faz hoje 1000 dias que o tempo deixou de contar. Por que o nosso tempo é de outra ordem. Faz hoje 1000 dias que o espaço se expandiu para contemplar o espaço onde existimos. Por que o nosso lugar, para os outros, não existe. 1000 dias. No tempo dos outros. Outro tempo, outro lugar para nós. Singelo, fugaz e perfeito na sua tosca imperfeição.

Uma coisa não consegui ainda alcançar: como é sentir que escrevo para ti? Tu. Que nem existes. Existindo.

Memorabília da Madrugada