Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Luís Mourão
Ilustração: Lisa Teles

O homem estava sentado muito quieto com a chávena de café vazia na bordinha da mesa à sua frente. Subitamente retirou do bolso um frasco de boca larga com um líquido amarelado a que retirou a tampa e cuidadosamente fez sair o olho esquerdo que colocou dentro do frasco com a ponta dos dedos. “Que cena incrível” pensou a rapariga atrás do balcão. “Como é que se chama o senhor?”, o homem estava a tentar retirar o olho de dentro do frasco, “O senhor? chama-se Jorge. E a menina?”, agora com o olho na mão inclinou para trás a cabeça e voltou a colocá-lo na órbita com uma mestria circense, “Voilá! Como é que se chama então?”, “Mariana” e sorriu, “A menina? chama-se Mariana, senhor Jorge”. O homem não disse nada. Voltou a guardar o frasco no bolso.

“Mais alguma coisa?”, nada obrigado.

E despediu-se. “O café é muito bom.”

“Olá, senhor Jorge. O costume?” O homem passou com elegância entre as mesas cheias de estudantes e encontros, crónicos e ocasionais, até chegar ao sítio onde tinha estado no dia anterior, e sentou-se. “Gosto desta mesa” disse ele uma vez mais tarde a Mariana, “Mas, parece que mais ninguém gosta.”

Bebeu o café e ficou muito quieto.

Agora já estava tudo mais calmo, duas pessoas num canto e uma no outro. Mariana perguntou-lhe se ele era dali. “Daqui? Daqui de onde?”. Daqui, porque nunca o tinha visto antes, não que isso fosse de sua conta, mas a verdade é que nunca o tinha visto antes. “Nem eu a si, menina.”

Tirou o frasco do bolso e com uma breve hesitação olhou para a rapariga. “Uns olhos lindos, fogo”, “Isto, incomoda-a? É chá de tomilho com cinco gotas de essência de malvas e uma gota de óleo de alfazema. Se a incomoda, diga”. Nada, não incomoda nada. E o homem lavou o olho de vidro e recolocou-o tal e qual como tinha feito no dia anterior.

“Quem é este?” e a rapariga explicou: “O senhor Jorge. Vêm cá todos os dias há mais de um mês.” Devia ter acrescentado, pensou ela, que se ele viesse ao Café com mais frequência não lhe estava a fazer perguntas destas. Mas, patrão é patrão, mesmo quando quer fazer de conta que não é. “Ah, sim?”, “Vem”. O homem mexeu-se na cadeira e Mariana perguntou-lhe se estava bem. Melhor é difícil se tivermos em conta as circunstâncias. “O cavalheiro quem é?” e Mariana contornou o balcão e sentou-se à mesinha. “É o Afonso, o dono disto. Cavalheiro? Ó senhor Jorge, francamente.” O homem riu-se e perguntou-lhe se era boa ocasião para fazer a magia do olho. Excelente. Afonso de boca aberta olhava o ritual. Mariana mergulhava o olho esquerdo de Jorge no frasco e devolvia-o a rir. Jorge, agradecia. Devia rir-se também mas não ficou registado.

Mariana estava ao balcão. Jorge sentado à sua mesa. Afonso entrou com dois homens e pediu-lhe que os servisse. E ela serviu, é claro. “O que é que quer que a gente faça?” perguntou o homem que estava vestido de azul. Afonso pestanejou. “Conhecem-no?” e os dois homens abanaram a cabeça. “Pois. Ninguém o conhece, o problema é esse.” O homem de azul ia para dizer qualquer coisa quando o outro o interrompeu: “Que é estranho, é.” “Como estranho? O homem não nos fez nada de mal. Nem a nós nem a ninguém” cochichou o homem de azul, que se chama Alberto na intimidade. “Por enquanto, Alberto. Por enquanto… É estranho. Muito estranho. Cá para mim anda a preparar alguma” respondeu-lhe sussurrando, Dionísio, o homem de castanho. Afonso estava radiante.

Ali a meia dúzia de metros, Jorge tirou o frasco do bolso e Mariana mergulhou-o na água amarela. “Obrigado Mariana”, “Olha, obrigado de quê Jorge?”.

Dionísio, sempre todo vestido de cinzento, entrou no Café como um autêntico profissional da espionagem e sentou-se encostado à máquina do tabaco muito calado. Mariana ignorou-o o mais que pôde antes de lhe perguntar o que queria beber. “Água”, “Água?”. Nem bom dia, nem um sorriso, o homem era em definitivo, mal educado. Mas cada um sabe de si e ela tinha mais do que fazer. Hoje Jorge estava inquieto. “O que é que tens?”, “Não tenho nada. Dormi mal. E tu?”, “Eu? Dormi bem”. Mas que conversa.

Dionísio, a ver tudo.

O homem de azul chegou atrasado e agitado ao Café, sobretudo azul a escorrer água, pés encharcados, cabelo a escorrer, até parecia que chorava mas, não. “Que porra é esta?” E explicou-se com a voz a subir de tom e a face cada vez mais rosada. Conversas secretas, está bem de ver.

Jorge continuava impávido sentado à mesa com uma chávena de café vazia em frente. “Tu não lês os jornais?”, perguntou Mariana.

“Nunca” e Jorge quase que acrescentou mais alguma coisa mas calou-se. “Nunca”, nem eu pensou Mariana, “São uma boa merda realmente”. “É o que há”, murmurou Jorge já a levantar-se. “Até amanhã, Mariana”. “Até amanhã”.

“Tenho quase a certeza de que é palestiniano. Um bombista suicida ou a puta que o pariu. Não achas que tem pinta disso?” o homem de azul abriu a boca e fechou-a sem saber o que dizer e mergulhou a cabeça na meia de leite que tinha pedido. Depois, passado um bom bocado, perguntou incerto: “Palestiniano? Como raio é que tu pensas que é palestiniano?”. E antes que o outro abrisse a boca acrescentou, “Podemos rever a coisa? Cala-te, Dionísio. Não me irrites mais, cala-te. Vamos rever. Fazem-nos uma queixa e nós vimos ver. Achamos, ou seja tu achas, que o homem que não faz a ponta de um corno e se vem sentar num café todos os dias pode ser, repito, pode ser “um espião, um criminoso” e agora pelos vistos “bombista” e sei lá o quê. Por isso, e porque tu foste informar isso lá para cima com ar sério, estamos agora há seis semanas sentados aqui todos os dias não sei quantas horas por dia. Achas isto normal?” “A mim parece-me palestiniano, o que é que queres que te faça?”, respondeu o homem de cinzento entre dentes e sem tirar os olhos de Jorge, que delicadamente estendia uma flor de guardanapo de papel a Mariana.

O Inspector Chefe seguiu rigorosamente o protocolo. Dirigiu-se ao balcão directamente, encostou-se e pediu a Mariana um café e um copo com água antes de olhar com ar desprendido e toda a volta e num tom de voz muito alto dizer: “Olha quem cá está. Bom dia Alves, bom dia Gonçalves. Há que tempos que não os via” e juntou-se aos outros dois na mesinha. “Nada?” sussurrou. “Situa-me lá, Alves…” e antes que Dionísio abrisse a boca acrescentou: “O Alves. Já conheço a tua teoria do palestiniano bem demais”.

Alberto chegou-se mais à mesa, “Alguma coisa há. O quê? Não sabemos”. E voltou a refastelar-se na cadeira. “Só isso?”, “Repare no modo como nos olha. O homem é bom e muito bem treinado, só pode ser. Nós aqui a olhar para ele e nem um tremor, nem um tique, nem um sinal mesmo vago de inquietação. É como se fossemos transparentes. Todos os dias passa por nós e deseja-nos um bom dia sem pestanejar, as mãos nunca lhe tremem, o coração certamente não lhe bate mais depressa. É como se fosse normal nós estarmos aqui, percebe? “, “Hum” respondeu o Inspetor Chefe. “Se ele fosse inocente, se nada tivesse a esconder, já estava mais do que inquieto, já tinha entornado a chávena, já se tinha escondido por detrás do jornal, já tinha feito qualquer coisa que nos levasse a perceber que estava nervoso. Um bocadinho nervoso ao menos. Mas, nada. O homem é a tranquilidade em pessoa”, e Alberto bebeu a água que restava no copo de Dionísio, “ Eu acho que temos aqui um berbicacho do pior”.

O Inspcetor Chefe olhava fascinado para Jorge. Mariana estendia-lhe o olho de vidro e ele com mestria recolocava-o sem interromper a conversa, só um sorriso agradecido e um sorriso de volta. Falavam sobre pássaros.

“Gonçalves…” o Inspector Chefe colocou sobre a mesa uma pequena pilha de moedas depois de as ter contado e recontado várias vezes, ausente, “… você sabe muito bem que o que entre nós se passa, entre nós fica. Certo?” É claro que sim, Dionísio não estava a perceber. “Aquela senhora de vestido roxo que está ali colada ao vidro a olhar para o suspeito não é por acaso a sua mulher?”

Mariana saiu ao caminho a Jorge para lhe dizer que não havia mesas livres. Mesmo tendo ela feito todos os malabarismos possíveis para que não fosse assim.

Jorge encostou-se ao balcão com um sorriso e um comentário que ela fez o possível por minimizar, “Ficamos mais próximos um do outro, assim”. Há resposta para isto? pensou Mariana. Se há, não a disse.

O Café estava completamente cheio. Afonso tinha contratado duas raparigas para ajudarem Mariana nas horas de maior aperto, até as horas de maior aperto se terem tornado todas as horas. Agora acotovelavam-se por detrás do balcão “Isto é incrível, Jorge. Olá Dona Gracinda, pão de mistura com manteiga e galão escuro?”.

Alberto e Dionísio de pé encostados à parede junto ao corredor para as casas de banho estavam nitidamente incomodados.

Afonso entrou com ar preocupado e chamou Mariana para junto da máquina de lavar por detrás do frigorífico, de facto o único local que parecia não estar apinhado. ”Por que é que hoje não guardaste a mesa para o zarolho, porra?”, “Desculpa?”. Afonso respirou fundo e explicou a verdadeira epopeia que era entrar no Café. Aquilo lá fora parecia uma feira. Julieta Marcolino, “a mãe do Pedro, sabes?” ali na esquina agarrou-o por um braço e sacudiu-o furiosa. Só ela tinha trazido umas dez amigas para ver o “homem-bomba ou isso” e, agora, por mais que espreitassem nem sombra dele. Na mesinha, que ela bem via, estavam sentadas quatro criaturas pouco interessantes que não valiam o passeio. Era certo. E, por isso, à Mariana pedia ele de joelhos se fosse preciso que guardasse sempre aquela mesa para Jorge custasse o que custasse.

“Está bem” respondeu Mariana “mas se lhe chamas zarolho mais alguma vez levas logo uma chapadona nas trombas. Fui clara?”.

Não foi D. Juliana, nem D. Gracinda, muito menos D. Cândida que começou com aquilo. Talvez tivesse sido, como se dizia à boca cheia, D. Alcinda, que como toda a gente sabia tinha um problema numa perna que lhe dava cabo dos dias e das noites. A verdade é que já ninguém sabia ao certo quem tinha sido a primeira senhora a trazer uma cadeirinha desmontável para se instalar em plena rua lateral, mesmo de frente para a montra onde estava a mesa de Jorge. Agora eram muitas e bloqueavam praticamente a circulação dos incautos na transversal. A Praça tinha uma esplanada do Café mas, não era na esplanada que elas queriam estar: “Não se vê nada de lá”. E tinham razão, refletia Afonso depois de ter experimentado todas as cadeiras da esplanada. Mesmo que pedisse a Mariana para arranjar maneira de mudar Jorge, “Daqui, não se vê nada lá para dentro de lado nenhum” lamentou-se.

A Polícia vinha de vez em quando mas nada podia fazer, as senhoras pegavam nas cadeirinhas de lona e mudavam de sitio com um esgar mateiro. Aquilo não era uma esplanada, eram pessoas sentadas numa rua sem trânsito. A Lei não previa, os polícias acabavam encostados à parede fronteira a olhar para Jorge, dentro do Café e a conversar com as senhoras de idade que se amontoavam em toda a volta. “Jorge? Hoje saio um bocadinho mais tarde” comunicou Mariana, “Não faz mal, já fiz tudo o que tinha para fazer hoje. Eu espero. A não ser que queiras que eu compre o que for necessário ou faça alguma coisa?”.

Mariana afastou-se com um acho que não é preciso nada e, olhos fixos naquela gente que se amontoava lá fora, rodopiou entre a clientela e dirigiu-se à mesa onde Alberto e Dionísio, muito concentrados, faziam as palavras cruzadas.

Não foram nada pacíficos os debates que levaram a Câmara Municipal a transformar a rua transversal à Praça na primeira “passage couvert” da Cidade. “Como em Paris ou Milão, tal e qual. Já era tempo, não?” respondeu o Presidente ao jornalista patético. “Um espaço de circulação confortável, que beneficiará o comércio local e se tornará, infalivelmente, num novo pólo de atracção turística”, escreveu ao fim da tarde o jornalista, que nem era má pessoa nem tão estúpido como frequentemente parecia. E, desta vez, ficou ali a olhar para o que tinha escrito com ar triste.

“Mariana, os homens ainda lá estão?” e Jorge ria baixinho levantando os olhos da chávena. “Não te rias, Jorge, coitados dos homens”, “É sem mal, sabes bem”.

Dionísio Gonçalves chamou Mariana com o braço no ar mas veio Andreia: “Um Martini, menina, sem limão nem gelo se faz favor”, “E mais alguma coisa para si?”, Alberto hesitou, “Um copo de vinho tinto”. Já a rapariga tinha retornado para trás do balcão quando voltou a falar: “Dionísio, não sei se podemos fazer isto em serviço. Não sei, mesmo”. E o outro explicou-lhe que sim, que podiam e deviam mesmo não fossem os outros desconfiar. Tranquilizado, Alberto tragou o copo de vinho como se tivesse sido servido num dedal. Avizinhavam-se dias felizes.

As obras terminaram uma semana antes de chegarem as chuvas de outono e D. Julieta fez mesmo questão em beijar a mão do Presidente assim que o apanhou a jeito: “Ora essa, D. Julinha” disse o homem atrapalhado, “Julieta, Julinho, o meu nome é Julieta. Estás mesmo a ficar uma lástima, vai-se-te a memória não é? mas obrigada na mesma pela cobertura da rua. Está fantástica. Assim já podemos organizar um Coro”, “Um Coro? Isso é com o Vereador da Cultura, D. Amélia”, “Julieta, Julinho, e não me venhas com merdas. Um Coro, sim. Não sabes que já temos todas as quartas aulas de Zumba? Agora falta o Coro”.

No mesmo dia o Inspector Chefe recebeu com um misto de alegria e apreensão, da boca de Afonso, a notícia de instalação de um ecrã gigante na esplanada da Praça que transmitia em exclusivo tudo o que se passava na mesa de Jorge, estivesse lá ele ou não. Um sucesso de tal forma que já estavam a pensar em alargar a área e ocupar o centro da Praça. Não era assim coisa fácil mas, tudo se havia de resolver. Era arriscado ainda assim porque Afonso, muito contra os seus princípios, pagava a Mariana sete vezes mais o seu salário só pelos direitos de transmissão. “Não parece bem, Afonso”, “É assim, o que é que hei de fazer senhor Inspector?”

Outra vez no mesmo dia mas por volta das quatro da tarde Alberto olhou para Mariana e vencendo a natural timidez perguntou-lhe: “Desculpe, não quero ser abelhudo mas a menina Mariana não está, digamos assim, grávida?” Mariana voltou-se radiante e respondeu-lhe: “Sete meses, senhor Alves. O senhor tem boa vista ou um dom para adivinhar”, “Ora, a menina está tão luminosa, tão bonita que é difícil não ver”, “Além da barriga”, “Além da barriga, pois”.

Dionísio Gonçalves entrou no Café a arrastar desajeitadamente uma caixa com um bolo para o neto que fazia anos e sentiu-se mal quando os outros dois se calaram quando ele chegou. Sentou-se e ficou a olhar para o outro, havia ali qualquer coisa que lhe estava a escapar. “Bom dia, meus senhores”, disse Jorge ao passar por eles, “Bom dia”. Mas sem despregar os olhos de Alberto.

Lá fora o Coro cantava “If I had a hammer” do Pete Seeger com um empenho inexcedível.

Mariana estava de pé frente a Jorge e demasiado cansada para grandes conversas. Já era muito tarde, o Café na obscuridade tinha deixado para trás mais um dia, frenético como tinha acontecido sempre que eles tinham decidido fazer a limpeza do olho de vidro a horas certas, três vezes por dia. As pessoas combinavam encontros na Praça, atropelavam-se a entrar, esparramavam-se contra os vidros, alugavam, por tuta e meia, as seis cadeiras desdobráveis da D. Julieta, e Jorge, chegada a hora, retirava o seu frasco do bolso e tirava o seu olho esquerdo. Mariana mergulhava-o no líquido amarelado e fazia-o rodar dentro do frasco, retirava-o com muito cuidado e estendia-o ao homem que o voltava a colocar no seu lugar. Ninguém dizia nada. Era como se durante um minuto ou dois nada respirasse. Uma paz, uma tranquilidade arrancada à razão. Uma coisa mística, belíssima e inexplicável. Mesmo o que estavam longe sentiam a força tremenda do silêncio. Pedro Quina, por exemplo, desmontava um carburador quando sentiu uma dor no peito e, tendo parado imediatamente, tirava nesse momento Jorge o frasco do bolso como mais tarde se confirmou, nunca mais voltou ao médico. Joaquina Oliveira, vinha do escritório para os Correios e tendo sustido o passo numa esquina e levantado o olhar para a Praça ou lá perto encontrou de frente Jacinto Pires que a convidou para administradora em Angola de um Fundo de Pensões o que mudou para sempre a sua vida. São coisas que se dizem por aí.

É certo que por toda a Cidade reinava, três vezes por dia, uma harmonia, um bem-estar, um equilíbrio, uma paz e um sossego que atraiam multidões. Ao fim de semana então, era um disparate.

Alberto e Dionísio fizeram questão em pedir a Catarina que dissesse a Andreia para dizer a Mariana, e se ela achasse bem a Jorge, que tinham gostado muito de os conhecer mas já era tempo de ir embora, coisa com que eles não concordavam em absoluto mas contra a qual nada podiam fazer. Passariam, ah sim, passariam por lá sempre que pudessem mas nunca mais seria a mesma coisa. Beijinhos grandes e abraços. Alberto e Dionísio.

Lá foram, azul um e cinzento o outro, discretamente escrever o relatório até às tantas da madrugada.

Nessa noite, Jorge, quase culpado, confessou a Mariana num rumor indistinto com o ouvido em cima do ventre inchado da rapariga que gostava da Cidade assim. Ela também. E, mesmo exausta e dorida dos peitos, dos pés e das pernas como estava, passeando a mão por entre os cabelos do homem com carinho, mudou de conversa: “Já hoje limpaste quatro vezes o teu olho esquerdo, Jorge. Não queres limpar o outro?”. “Pode ser, meu amor”. Mariana, estendendo a mão tateou cautelosa o frasco de líquido amarelado na bordinha da mesa de cabeceira enquanto Jorge tirava delicadamente o olho direito da sua órbita.