A geografia de um ser humano é, provavelmente, mais complexa do que a dos Montes Urais. Tal como um lugar, está sujeita a factores externos, como o clima. No caso dos homens, acontece com frequência em narrativas que decorrem em desertos ou montanhas, existirem personagens introspectivas, ou mesmo rudes, que estão em sintonia com o espaço em que se inserem.

Uma grande amiga minha, que conheci há muito, muito tempo, num lugar muito, muito longínquo, fez recentemente uma reportagem sobre os portugueses que foram obrigados a deixar as ex-colónias há 41 anos. Além dos obstáculos e todos os impedimentos à fuga, é interessante perceber como, décadas depois, o lugar de onde saíram continua a exercer tão grande influência sobre essas pessoas. Ainda que o modo como de lá saíram seja responsável pela maior parte da equação.

Este caso concreto torna-se ainda mais infeliz pelo facto desse lugar, que foram forçados a abandonar, já não existir. Desintegrou-se ainda antes de partirem. O exemplo é extremo, mas o que acontece com os nossos lugares? A cidade da nossa infância ou para onde fomos estudar? Serão os mesmos quando (e se) regressarmos?

Durante um semestre em 2005, morei em Itália. No dia em que apanhei o avião de regresso a Portugal, a caminho da estação de comboio, senti alguma tristeza na partida. Tinham sido meses muito felizes, conhecera pessoas novas e aprendera outra língua. A vontade de partir não era muita, mas pouco antes de chegar à estação, ocorreu-me que aquela tristeza não tinha sentido: as saudades advinham dos bons momentos passados, e esses a cidade nunca mos poderia devolver, mesmo que regressasse.

Quatro anos mais tarde, voltei à cidade. Fi-lo sozinha, numa tarde de inverno, como o viajante de Calvino. Percorri trajectos que fazia habitualmente quando lá morava. Visitei bairros que frequentava e fui até à porta do prédio onde habitara durante esse período. O vizinho era ainda o mesmo e o seu carro encontrava-se estacionado no mesmo sítio de há quatro anos, como se nunca tivesse saído dali. O café da esquina encontrava-se aberto como habitualmente e o mercado ocupava a praça principal no mesmo dia da semana. Houvera algumas mudanças na circulação rodoviária, mas, excepto isso, a cidade mantinha-se imperturbável. O contraste entre a cidade italiana e o país asiático onde morara até há cerca de um ano perturbava-me. Na Ásia, a cidade onde vivera encontrava-se em constante mutação. De um dia para outro, edifícios em obras entravam em funcionamento. Espaços degradados eram substituídos por estaleiros de construção e no espaço de poucos meses nascia mais um prédio. Enquanto na cidade italiana o clima era extremo – ora muito calor, ora frio polar –, na cidade asiática as temperaturas nunca atingiam máximos, apesar da humidade.

Saí de um destes lugares com tristeza, sentindo saudades dos momentos alegres que ali vivera. Do outro, parti com alegria, na ânsia de rever os entes queridos. Para o primeiro, viajei despreocupadamente; para o segundo, ponderei todos os prós e contras, e parti convicta de que aquele lugar mudaria a minha vida para melhor. Não aconteceu. Mas tenho consciência que não seria o que hoje sou, se nunca tivesse partido. Hoje já não sou uma ilha. A minha geografia será mais complexa, terá talvez mais montanhas, mas no meio destas terá certamente um doce vale, quem sabe algumas praias, mas nunca, creio, um deserto.