Troca de mensagens contigo. O essencial da conversa? Estás recém-solteira após mais uma relação de média-longa duração, e pediste-me, não!, imploraste-me para que não te deixasse descambar, que te impedisse de começar com a putaria, que te relembrasse que tens uma carreira que passa por um momento pivotal, que tens mais o que fazer do que ficar pendurada neste e naquele, a carregar no lombo a Pedra de Rosetta para decifrares mensagens lidas e não respondidas imediatamente, a gastar guito em depilações e cuecas e, deste modo, esqueceres-te de ti mesma.

– Mas porra! Porque não?
– Porque não tenho vida para isso.
– Não tens o quê?
– Olha o que queres? Já não tenho idade para isso.

Pois aparentemente minha amiga, naquele dia de curiosidade e amor próprio que todas devíamos ter, quando pegaste no espelho para o colocar entre as tuas pernas e veres a ti própria, em pleno, ali em baixo, viste lá carimbado uma Data de Validade. Pior. Viste um Consumir de Preferência Antes de.

É que citaste a página 5, parágrafo 7, alínea a) do Manual de Desinstruções que é entregue com cada exemplar:
Primeiro, a vagina é para permanecer intocada, por ser o tesouro que se tem na vida.
Depois de aberta, é suposto ser guardada durante anos no cofre de um único dono.
A seguir, é auto-designada de inútil ou perigosa como lixo radioactivo.

Reciclar, reutilizar e aproveitar.
Quando o desejo fica em primeiro plano, tem peso. Sufoca o peito. Permeia a mente e a cueca. Acelera. Cria urgência. Acorda. E, sim, assusta.

Por isso não podes dizer que nos esquecemos de quem somos, pois é precisamente assim que somos confrontados com a crua realidade do ser bicho que somos. Inconvenientemente sensorial.

Regressa então ao espelho. E vê-te.

Porra! Porque não?
Antes que não tenhas, literalmente, vida para isso.