Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: José Alberto Vasco
Ilustração: João Pedro Coutinho

Coubera-lhe desta vez entrar pelo meio. É assim que muitas vezes se entra nas grandes cidades. Ou nas pequenas. Daquela praça passava-se a ruas estreitas e pouco movimentadas. Onde o mundo se acabava e as mulheres estendiam roupa em casas degradadas. Entrara quase por acaso numa delas. E quase escorregara no granítico empedrado que a humidade latente rapidamente transformara na sua porta de entrada para um destino tão inesperado como o da sua própria vida. Inadvertidamente entrara num sonho. E dificilmente dali sairia.

Foi nessa tarde que ela entrou definitivamente na sua vida. Aos saltinhos. Como quem não quer a coisa. Quase levitando. Atravessando vidas e pontes a uma velocidade incrível. Quase como num sonho. Numa caminhada cheia de olhos verdes e pontinhos azuis. Mais tarde conversariam os dois muito calmamente no meio de largas centenas de livros. Olhando um para o outro, como se não existisse mais nada nem ninguém neste mundo. Ou como se por ali não flutuassem mais cidades, mais parágrafos ou outras galáxias.

Morrera às suas mãos todo o universo de reticências que durante tantos anos edificara. Ela fora o tal parafuso que quase sem se dar por isso encravara definitivamente a sua engrenagem. Levitando. E todo esse edifício parecia agora ter ruído. De vez. O seu parafuso continuava muito bem escondido na tal caixinha. Que agora se voltara a fechar. E ela continuaria certamente levitando. Dançando eternamente aquela sua música sem poema nem rima. Enquanto toda essa história se desenrolava ele saíra novamente para apanhar ar fresco. Caminhando ironicamente pelas ruas e praças da cidade. E aguardando tranquilamente pelo regresso daquele final de tarde em que se haviam perdido muito lentamente numa estrada nacional. Regressando a casa a meio da noite. Rindo que nem uns loucos e ouvindo música pimba, entre imperiais e amendoins. Levitando entre romances, novelas e ensaios. E a cidade continuaria sorrindo até à eternidade. Umas vezes a cores e outras a preto e branco.