Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Mónia Camacho
Ilustração: Lisa Teles

Acordei dentro de um vestido branco; é transparente e não é meu.
Fica-me bem. Quando me movo, ondula como extensão de mim. Na barra tem pequenos guizos que dizem coisas cada vez que dou um passo. É um vestido feito para dançar. Não para fugir.
A porta está fechada. Há uma coluna de som no tecto por onde entra música melancólica. O silêncio aqui nunca existe.
Na cabeceira está um livro marcado com uma pena da mesma cor do vestido. Fixo os olhos na última frase do capítulo: “Para começar, meu amor, tu não tens alma…”. A autora tem, exactamente, o mesmo nome que eu: Ana Teresa Pereira. Tê-lo-ei escolhido por isso? Será uma oferta?
A frase continua a lançar medo para dentro de mim. Está a puxar-me para um sítio que não conheço. Pelo menos sei como me chamo, já não é mau. Mas acho que é a única coisa que sei.
Sinto a boca salgada: como se as lágrimas se tivessem enganado no caminho. Não sei de que matéria sou feita.
Em cima da almofada está um gato da mesma cor do vestido. Tão prisioneiro como eu. Mas não parece importar-se. Ronrona suavemente. Como se tudo estivesse no lugar.
Há qualquer coisa de louco nesta cor.
Sinto-me um vício, ou uma obra de arte num local de exposição demasiado pequeno.
O quarto é um espaço íntimo. Tem uma janela que dá para o mundo real. Sem grades. Estamos a dois andares do solo. Lá fora há uma floresta. Ou apenas algumas árvores amigas. O dia deve estar a meio. A cama só tem dois lençóis e uma colcha. Todos da tal cor. Fico a pensar se darão para fugir como toda a gente faz. Apesar disso, não sei se quero fugir. Embora seja a vontade natural de quem tem a porta fechada.
Talvez, para começar, eu não tenha alma (as palavras da minha homónima atormentam-me).
A música muda de tensão. Está mais musculada. Quase dá pontapés. Mas não me atinge. Consigo abstrair-me.
Continuo a olhar para o meu conjunto de possibilidades. Puxo a janela para cima e deixo entrar ar novo. O gato olha para mim. Salta para o parapeito e espreita. A curiosidade dele está agora a par da minha. Estamos juntos nesta descoberta.
– Como é? Atiramo-nos?
Tiro a pena que tinha colocado na orelha e volto a marcar o livro.
Ato os lençóis com a colcha e faço a minha corda, como nos filmes. Prendo-a na única peça de mobília capaz de me suster: o guarda-fatos. Despeço-me do gato. Que não me cobra este abandono.
Passo as pernas para o outro lado da janela e começo a minha descida. Estou agora a par da janela de baixo. Na minha frente está um homem a tentar abri-la. Parece ansioso. Ignoro-o.
Continuo a minha descida. Chego ao fim da minha corda lençol. É o último momento em que posso ficar. Solto-me e sinto o chão puxar-me.
O choque doeu-me. A realidade é dura, mais do que eu pensava. Ainda assim levanto-me e corro. Cheira a terra. Oiço o som dos guizos a avisar a minha fuga numa música ritmada. São as campainhas de alarme. Sou eu a fugir da vida.
Há cães a ladrar. Talvez me venham desfazer. Não sei. Continuo a correr. A vedação está a escassos três metros. Sinto falta de ar. Tinha esquecido esta sensação. Respirar é difícil.
A lama misturou-se com o branco. Noto agora que é um vestido de noiva. Ou parecido. É detalhado. Tem lantejoulas e coisas brilhantes, apesar da simplicidade.
Salto a vedação com dificuldade. Rasgo o tecido que me prende àquele passado. E liberto-me. Esse sentimento dura escassos segundos.
Sinto um dardo atingir-me; mas continuo sem olhar para trás. O sono está a apoderar-se de mim. Com esforço mantenho os olhos abertos. Arrasto-me pelo meio do mato. A paisagem torna-se menos nítida. Os tons e as formas misturam-se. Fundem-se.

A mulher está desacordada. Sinto-lhe o pulso e passo-lhe a mão pelos cabelos. Sei que estou obrigado a entregá-la. Serei levado a tribunal militar se não o fizer.
Mas algo naquele rosto me impede de a levar de volta.
Tomo a decisão estúpida.

Acordou dois dias depois.
Diziam que era perigosa. Quem a encontrasse devia chamar o exército. Escondê-la era considerado traição punível com prisão perpétua.
E ali estava ela na minha sala.
À minha guarda.
Talvez eu sempre tenha querido esta função: guardar.
Nestes dois dias estudei-lhe o rosto e todas as expressões. É difícil acreditar que não tem alma.
O primeiro ser sem alma.
Estava capaz de lhe dar a minha, se ela a quisesse. Mas ninguém sente falta do que nunca teve.
Os olhos dela, cor de avelã, estão a olhar-me.
Sossego-a.
A minha voz parece agradar-lhe.
Talvez a alma não seja essencial para ser, existir.
As lágrimas caiem-lhe pelo rosto sem fazer barulho.
– Ajuda-me.
Pancadas sacodem a porta.
Escondo-a.
É o exército. Revistam-me a casa. Mas nem sequer são bons a fazê-lo. Acabam por desistir.
Ela desce do interior da lareira. Cheia de negro, sorri.
– E agora?
Agora fugimos.