Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Sónia Oliveira
Ilustração: João Pedro Coutinho

Prendeu a ponta do arame no para peito, a outra ponta presa ao ramo mais corajoso. Lá em baixo todos aplaudiriam, embora ainda não soubessem o que se preparava para acontecer sobre as suas cabeças, nem soubessem tão pouco que o corpo é capaz de tais prodígios, como olhar para cima. Fez uns breves exercícios de aquecimento, ensaiou os passos e o retomar do equilíbrio com uma rápida flexão dos joelhos. Hesitou em relação à lista de nove páginas que teria de levar consigo: quatro numa mão e cinco noutra? Ou ao contrário? Decidiu levar as nove páginas na mão esquerda, da qual mais facilmente se esquecia. A outra ficaria livre para comandar mecanicamente o gesto. Respirou fundo, acariciando com essa respiração a camada espessa de contentamento que lhe forrava o desígnio. Dali a nada estava a meio do arame, os pés em breve acento circunflexo. Se tremia não se via. Não se via. Muito ao longe um dirigível vermelho cortava o lençol de vento que decidira, à falta de melhor dispositivo de segurança, suspender a trajectória para acolher aquele intrépido trapezista sem rede. Coisa nunca vista. Os cinco últimos passos foram breves como colcheias, o restolhar das folhas confundindo-se com o restolhar da lista, o rombo dos aplausos anunciando-se na batida cardíaca. Chegado ao ramo desprendeu o arame que de novo se colou à fachada do prédio. Ali ficou muitos anos, misturado com os cabos eléctricos e os fios telefónicos, guardiões de outros impulsos.