Que um estilo de vida saudável é preconizado por médicos e pelo Popeye já sabíamos. Sendo “a saúde o mais importante”, expectável será que se dê alguma importância à questão. Agora, se antes era o divino que comandava a vida, regrando e avaliando-a numa métrica teológica, o credo moderno apoia-se neste culto da saúde, onde o corpo é a expressão máxima da religião, sendo que se relevam aspectos mundanos como a alimentação, exercício físico e hábitos de consumo, só para citar alguns.

Ou seja, se antes ao domingo se pregava que a gula é um pecado capital, agora avalia-se entre o térreo e o etéreo na escolha do melhor iogurte bio para combinar com a granola da quinta, porque faz bem à pele.

No fundo, segue-se um trajecto espiritual mais terreno e mais individual, ligado ao corpo, à saúde e ao bem-estar, cuidando do que comemos e dos hábitos que praticamos. Isto é já uma religião com milhares de seguidores, com encontro não na igreja ao domingo mas nas pistas de corrida de manhã, na Decatlhon e sob a efígie hastagiana de #healthylifestyle, #bitch.

Nem que seja para cagar a passear o cão, qualquer moderado moderno cidadão da urbe preza ter umas sapatilhas de corrida. Para além de serem confortáveis e especialmente aerodinâmicos, estes chanatos são verdadeiros contemporâneos ícones da moda. Há modelos que custam o mesmo que uns sapatos Prada, há uma concorrência acérrima entre os gigantes do desporto, que vêem no #healthylifestyle uma oportunidade única para aumentarem o seu mercado alvo, há cada vez mais desfiles de moda em que são apresentadas colecções de sapatilhas de corrida, enfim, começo a pensar que no próximo casamento vão estar todos de yoga pants e lycras impermeáveis. E eu de fato, porque ninguém me avisou.

De facto, este tipo de calçado já ultrapassou há muito a função de re-rotular qualquer indivíduo com mais de 35 como “jovem”. É já vinculativo a um estilo de vida. Nascem consumidores cuidadosos que atentam aos OGM (organismo geneticamente modificado), vêem o documentário Before the Flood e falam de cárdio e recuperação muscular como quem comenta o tempo. Talvez por isso sejam tão populares estes produtos. Talvez por isso seja tão popular esta cultura, do estares bem com o teu corpo e sentires-te bem nessa pele. Talvez por isso sejam tão populares as selfies em ginásios, porque sem prova não há crime.