Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Margarida Vale
Ilustração: Lisa Teles

Já não moro na cidade grande. Mudei-me e foi uma decisão muito acertada. Não me arrependo. Vivi lá tantos anos que nem me apercebi que era uma estranha no meio duma multidão. Crescemos e deixamos de ser o filho de fulano de tal ou o neto da dona qualquer coisa. Passamos a ser nós, a ter uma identidade própria, a ter um nome, a sermos nós.

Olhava para a rua e não sabia quem era quem e, na realidade, isso não me interessava mesmo nada. Quando somos crianças há todo um conjunto de aptidões e facilidades que não nos impõem barreiras. Chega a uma altura e deixa de assim o ser. Limitamo-nos. Simplesmente deixámos de ser fáceis. Quando perdemos os diminutivos percebemos que aquele tempo de frescura e liberdade já não volta e que o vivemos tão rápido que nem nos apercebemos disso. Onde estivemos esse tempo todo? Vivemos sim, de forma jovial e inocente que o tempo não era uma marca mas uma simples palavra sem significado. Escoou-se e voou. Foi-se.

Um dia acordei e vi que nem me conhecia, que nem sabia quem era aquela cara que me olhava no espelho, com ar reprovador. Onde estava? Em que estação do tempo estava parada? O comboio da vida apitava e eu tinha que me apressar para o acompanhar. Foi então que pensei se valia a pena voltar todos os dias para um local que não me acolhia, que me ignorava. Fui embora, num dia em que estava cheia de vontade de fazer alguma coisa de diferente. Fechei a porta e nem olhei para trás. Ia à descoberta de novos mundos, de novos povos, de novas aventuras. Senti-me um autêntico explorador, um navegante dos descobrimentos. A diferença é que eu ia sentada, confortavelmente, no meu carro e eles iam naquelas cascas de noz, trémulas e inseguras. Mas o objectivo era o mesmo e não sabíamos o que se iria passar.

Casa nova. Vida nova. Mentalidade nova. É uma sensação tão grandiosa que parece que me invade totalmente e me domina. E agora? O que vou fazer a seguir? Não preciso de muito, basta-me a vontade de estar e de mudar. O resto virá por arrastamento e, com o tempo, encontrarei aquilo que me fará falta. Mas agora estou bem assim, no meu mundo, num novo local onde não conheço ninguém e ninguém me conhece. Será por pouco tempo, eu sei, porque nos meios pequenos as pessoas acabam sempre por se conhecerem e partilharem vidas. Estou bem assim. Ambiento-me.

Sento-me no chão. Olho à minha volta. Não tenho quase nada e sinto-me completa. É um livro em branco, um diário que me é dado escrever, todos os dias, acrescentar as vírgulas, os pontos e as reticências. É o meu diário. O chão parece-me suave e convidativo. Deito-me e abro os braços. É o meu novo lar, o lugar onde eu quero ser eu e não ser a continuidade de alguém.

Não cortei amarras, simplesmente cresci e fiz escolhas. A vida está repleta delas e esta foi uma das minhas. A ligação não se cortou mas tornou-se mais alargada, o que me permite novas responsabilidades e desafios. Vou conseguir tudo porque tenho uma direcção a tomar e nunca ma irei perder. Se não for aquela, paciência, será a outra, eu é que não vou desistir.

Sinto-me uma criança a quem foi dado um novo brinquedo. Tudo é para mim, tudo será com eu quero, tudo é novidade e é tão bom quando temos esta maravilhosa capacidade de ainda nos descobrirmos. Por cada etapa há sempre um novo conjunto de desafios e eles aliciam-me, com voz muito doce, a segui-los. Olho para a parede. Vou colocar papel de cenário a toda a volta da sala. Cada dia vou escrever alguma coisa, um poema, um desabafo, uma frase que oiça, um pensamento que tenha. Vai ficar a marca registada e até me vou rir daqui a uns tempos, quando voltar a olhar para ele.

Esta sensação de liberdade é poderosa! Estou por minha conta e risco em relação a tudo.Tenho de encontrar os locais que me serão úteis, a padaria, o supermercado, a frutaria, a papelaria, qualquer loja que possa ser uma ferramenta para a minha vida. É um núcleo pequeno, não deve ser difícil e as pessoas ainda se tratam pelos nomes. Que bom é ouvir o som do nosso nome. Eu gosto. O ar soa-me a pureza, a limpidez, a respiração é pura e sente-se um ambiente de rusticidade. Vejo campo, árvores, relva, erva, animais, rebanhos. Há quanto tempo não via um rebanho? Aqui ainda há transumância ou pastoreio. Não sei. Sou nova aqui. Oiço pássaros e outros sons que nem sabia que existiam. Estou deliciada.

Já não moro na cidade grande. Moro num terreola onde as pessoas ainda se cumprimentam, têm o salutar hábito de se auxiliarem uma ás outras, deixar as portas abertas para quem as quiser visitar. São genuínas e sabem o nome de todos. Estou a construir a minha casa. Tenho onde dormir e onde comer mas ainda não é aquilo a que se pode chamar casa. Casa é onde nos sentimos bem, onde está o nosso porto seguro, onde nos encontramos e reencontramos. Não é só material mas também espiritual, mística, metafísica.

Estava a ficar intoxicada. Agora vivo ao ritmo do sol, das tarefas campestres, do quotidiano ancestral, do domínio artesanal e das histórias que ainda se contam. Todos têm um passado comum e as suas vidas são contadas como exemplos e modelos a seguir.

Sei que ainda sou uma intrusa, que vou ter que conquistar toda a gente mas não me importo, é isso mesmo que quero. A mudança implica esforço, trabalho e luta árdua. Dou por mim a falar sozinha, a pensar que afinal me estou a reencontrar, a construir e talvez um dia contem a história da rapariga que saiu da cidade grande e foi viver para o campo.