Já só faltam 12 dias para o ano acabar. É menos de um mês, mas 12 dias é tempo de sobra para acontecerem desgraças. Só numa semana que passou, a terra tremeu três vezes em diferentes lugares do Pacífico.

Uma tragédia necessita apenas de um instante para se materializar. E com 12 dias pela frente até 2017, acho que há ainda muito potencial para catástrofe até ao final do ano. Por isso, à cautela, comecei a recordar e a reflectir sobre o que 2016 me trouxe.

Logo em Janeiro, 2016 levou o Bowie. Fui apanhada completamente de surpresa, como era possível, ainda nem há uma semana tinha lançado um novo álbum? A seguir foi o Alan Rickman, nem cinco dias depois. Mais à frente, morreu o Prince. Em Junho, foi a vez de Muhammad Ali e do moço da nova série Star Trek, Anton Yelchin. Um mês depois, morreu Alan Vega e no mês seguinte, em Agosto, Gene Wilder. O primeiro americano no espaço, John Glenn, morreu há uns dias e nem mesmo Fidel Castro, que sobreviveu a centenas de atentados, conseguiu sobreviver a 2016.

Foi uma razia, à qual se acrescentou a crise dos refugiados, a tragicomédia das eleições americanas, um golpe de estado na Turquia, dezenas de atentados, a crise humanitária de Alepo e diversos terramotos.

Tudo isto me faz temer a chegada do novo ano. E ao mesmo tempo, agradeço ao universo o facto de ainda termos Iggy Pop, Tom Waits e Nick Cave. Enquanto eles existirem, haverá boa música a ser produzida e canções que conseguirão animar mesmo os dias mais ranhosos.

O meu ano não foi trágico e, a bem dizer, até começou bem. E apesar de uma ida às urgências e umas quantas contracturas musculares, posso garantir que até Julho as coisas correram bem. Daí para a frente, começou o declínio, embora intercalado com algumas subidas. Se pudesse fazer um gráfico que ilustrasse o meu ano, incluía uma linha ascendente que, a partir de Julho inicia uma trajectória descendente, transformando-se daí em diante numa espécie de rabisco saído de um sismógrafo em zona de forte actividade sísmica.

Durante muito tempo, na minha jovem vida, sempre que procurava analisar o conteúdo do ano que se concluía, o resultado era invariavelmente optimista: «Sim, este ano morreu-me o gato e fui atropelada, mas nem tudo foi mau.»

Mas, como referi, eu era jovem e, quando se é, pensa-se sempre que coisas espectaculares irão acontecer no futuro. Mesmo que não seja neste ano, ou no próximo. Mas coisas extraordinárias hão-de acontecer. E os anos vão passando.

A partir de certa altura – depois de começar a trabalhar e a pagar impostos – torna-se difícil acreditar que «coisas espectaculares irão acontecer no futuro», porque se iam acontecer, já deviam ter acontecido. E o balanço do ano que vai acabar transforma-se num resmungo desiludido. «Este ano bati com o carro, o seguro aumentou, atropelei o gato e o namorado/namorada deixou-me. Foi um ano de merda.»

À medida que o tempo passa, o optimismo diminui. Não sei se por já termos visto mais do mundo e da humanidade, ou se porque a finitude da nossa existência se torna uma realidade. Talvez sejam os dois. Talvez seja só eu. Mas suspeito que, no final de um ano como este, o optimismo seja necessário. Não para enganarmos o espírito como quem engana uma barriga com fome, mas porque acreditar é preciso. Acreditar que a humanidade não é só esta que faz as notícias, a do lado negro, mas que há mais além disso. É disso que precisamos.

E já agora, um feliz Natal.