Paulo Kellerman convida e coordena, nós damos a caneta e o papel, depois é só juntar talento e os contos nascem. Todos os sábados, há ficção na Preguiça Magazine.

Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Ilustração: João Pedro Coutinho

Fonseca estava atrasado. Novamente. Ele até tinha a fama de pontualíssimo, fama essa que lhe vinha dos tempos em que todos tínhamos namoradas. Claro que todos esperávamos enquanto elas faziam a gestão das transparências e dos decotes, dos rimeis e dos batons de modo a impressionarem os homens, mas não demasiado, e a provocarem a inveja nas mulheres, mas não demasiada. Era uma gestão difícil e, por isso, mais ou menos pacientemente lá esperávamos por elas enquanto fumávamos cigarros na sala ou conversávamos com potenciais sogras.

Mas Fonseca não. Tocava à campainha e voltava para o carro. Esperava exactamente cinco minutos. Findo esse tempo voltava a tocar. Se uma voz respondesse do outro lado do interfone, Fonseca dizia secamente: “vou indo, vai lá ter”. E ia. E, por isso, chegava sempre antes de nós, seguido de uma namorada furiosa. Aos poucos íamos chegando, casal após casal, nós descontraídos, elas maravilhosas nos seus decotes reveladores (mas não demasiado) e saias curtas (mas não demasiado).

Fonseca era assim, inflexível nos seus princípios. Dizia que só mudaria quando uns olhos verdes o conseguissem desviar do tempo e do espaço.

Se calhar era por isso que demorava. Talvez tivesse encontrado uns olhos verdes, os olhos verdes que sempre procurara. Ou então estava só perdido numa qualquer rua escura e assombrada do seu próprio pensamento, a meditar sobre uma qualquer frase, um qualquer verso ou uma qualquer ideia. Porque Fonseca era assim. De qualquer palavra fazia uma história. Ah como ficaria furioso se eu lhe dissesse isso! Sim, porque Fonseca não é um fazedor, nem mesmo um contador de estórias. Chateia-o a previsibilidade, entedia-o a banalidade das coisas vulgares. “Contar estórias é uma técnica, nunca uma arte!” diria ele se aqui estivesse. Para o chatear , argumentaria. Diria que há histórias ou palavras soltas. Quando as palavras se unem fazem histórias. Ou estórias. Ou historinhas. Todos os contadores colam palavras, prendem-nas umas às outras, dão-lhes vida, vidas, vidinhas e até más vidas. Contam a sua história, as histórias dos outros ou, principalmente, histórias que podiam ser deles ou dos outros, mas que são das palavras. Sejam génios ou loucos, poetas ou filósofos, artistas ou cientistas, pintores ou músicos, sejam bons ou medíocres, todos nos contam histórias, as histórias que nos dão o mundo, todos os mundos e todos os universos que a imaginação pode criar.

Uma da manhã e Fonseca ainda não chegou! Se calhar foi assaltado nalguma rua escura, daquelas em que ele se aventura na noite… mas isso era uma coisa demasiado óbvia, demasiado previsível para acontecer ao Fonseca. Provavelmente está em casa, perdido do tempo, sem olhos verdes, apenas a ver as notícias.
Amanhã telefono-lhe e ficarei a saber a estória da sua noite.