Estado Um | Carlos Martins

1. A minha anarquia é a mais anarquista de todas. Na minha anarquia não há “eles”, há “eu sei e vou ser melhor” e não tenho nenhuma razão para delegar o meu futuro. Já não me interessa o anti-autoritarismo porque a minha anarquia não tem baixa auto-estima; ela é espiritualmente auto-suficiente e depende de factores internos para existir com saúde.
2. A democracia foi desenhada para ser exercida por homens extraordinários que não usam o sistema para bem próprio; a democracia é usada por homens falíveis porque os homens são falíveis. A democracia não só não funciona como não existe.
3. A responsabilização da pessoa é o caminho mais árduo e mais lento, mas também o mais eficaz, em termos de organização duma sociedade. O bom senso é consequência das consequências verificadas em determinadas acções. Isso leva tempo.
4. Todos os símbolos patriotas são por natureza separatistas e confundidos como forças de identidade nacionais. A identidade dum povo é interior e não necessita de simbologia.
5. A arte pode e deve ser oferecida por quem quiser fazê-lo sem instituições terem algo que ver com isso; oferecer e partilhar alguns tipos de arte em Portugal deveria ser possível.
6. O governo não é Portugal.
7. A espontaneidade humana é a bitola mais exacta para o conhecimento e crescimento dum povo.

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 4 Julho 2013)

Julia Marcell

Há cinco anos esta pessoa veio da Polónia ao Sport Operário na Marinha Grande apaixonar uma plateia esgotada. Trazia um violino e usou o piano da casa, não foi preciso mais. Entretanto produziu-se, metamorfoseou-se e está crescida como tudo!

Na internet
www.juliamarcell.com

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 27 Junho 2013)

Archive

Estive muitos anos para estes me aparecerem à frente em jeito de concerto. Quando finalmente aconteceu, tremi de expectativa e de medo de a mesma ser gorada (é assim que se diz, não é?), mas não só foi correspondida como me ultrapassaram a 150 km/h numa curva apertada.
Senão vejam no vídeo que aqui vos deixo.

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 20 Junho 2013)

JP Simões

Vi este concerto, e quando as pessoas são assim tão transparentes, são à prova de tudo. Seja o mundo o que ele quiser ser.
Gosto de me drogar assim.

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 13 Junho 2013)

Lama Trio

O Gonçalo fugiu para a Holanda antes de ser preciso, mas revelou-se uma excelente decisão. É contrabaixista, poeta, curioso e amigo de coração em riste. Ainda sinto que o Gonçalo está sempre prestes a voltar para Portugal porque custa-me perceber que ele é um músico do mundo no mundo, mas é isso mesmo que ele é e as minhas saudades são só feijões desmamados de capricho.
Este é o projecto do Gonçalo.

Na internet
lamatrio.wordpress.com/

(o atraso da minha sugestão da semana deve-se ao facto do Necas ter sempre cerveja boa a sair e um homem distrai-se)

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 6 Junho 2013)

TAPE JUNk

O Beck a fumar cigarros com o Nick Drake e com outro gajo que o meu cérebro insiste em não desvendar. Não é Adam Green (mas também é) e não é Lemonheads (mas também é). Ideias?
Há um grupo de pessoas de Lisboa que fazem coisas tão boas com tantos avatares que um dia vão fazer aquela cena que fizeram com os Tédio Boys, uma árvore de ramificações dessas pessoas e o que daí surgiu.
Julie & The Car Jackers, Márcia, Walter Benjamin, Suzie’s Velvet, só para citar alguns. Chamar-lhe-ia movimento. Porque o é.

A boa notícia é que isto está excepcional, a outra boa notícia é que está aqui tudo à borla:
optimusdiscos.pt/discos/destaques/the-good-and-the-mean

Na internet
www.facebook.com/TapeJunk

Texto de Carlos Martins
(Publicado a 30 Maio 2013)

Palmas

Um miúdo, nitidamente envolto em moral católica/capitalista/empreendedora montou um negócio que, pelo que percebi, não interessa o que faz mas o dinheiro que faz. Esta semana, num programa de televisão, foi lá ser miúdo católico/capitalista/empreendedor e uma convidada fez-lhe duas perguntas básicas às quais o miúdo respondeu como um miúdo de 16 anos responde. O aplauso que se seguiu pode ter acontecido derivado de três motivações possíveis:
- palmas para o miúdo que já consegue dizer palavras;
- embrulha, sôtora, que não tens nada de ser arrogante;
- a sôtora é anticapitalista e levou uma lição dum empreendedor juvenil.

As três opções são estúpidas e temo que as três sejam verdade.

Eis que aparece um bate punho adolescente (isto podia descambar facilmente agora), como se não tivéssemos aprendido com o outro, que é só idiota e ilibo-o por desorientação: este é uma criança que repete procedimentos. O disparate perpetua-se, passa de punho para punho e fico com a sensação de que acabei de ver um concurso de beleza com miúdas americanas de sete anos vestidas de desvios. Empreendamos, senhores, que isto é carnaval e a orgia é imensa, descontrolada, transversal, cega, oca. Abracemos a falência do sistema com as unhas e os dentes agarrados ao sistema. É como querer curar a sida com chá de prepúcio de Freddie Mercury.

Texto de Carlos Martins
(Publicado em 23 Maio 2013)

Coisa nova da almighty Scout Niblett!

Já assisti a 3 concertos e um deles foi tão intenso que a rapariga saiu aos prantos do palco para voltar 15 minutos depois de copo na mão. Normalmente resolve.
Nasceu britânica e fugiu para os E.U.A. porque, disse-me ela, os ingleses não entendiam a música dela. Eu ao início também não entendia, depois entendi e depois fiquei viciado. Lembro-me quando me bateu, a palavra que se me apareceu foi: liberdade. Ela é livre. Com a devida panca, claro. (Publicado em 16 Maio 2013)

Na internet
scoutniblett.com

Laura Marling

Nada a dizer, mel a cair em nuvens. Quando a divindade e a dualidade humana conspiram assim percebe-se porque é que o mundo foi feito. Perdoem-me a espiritualidade, mas é que fico com a nítida sensação de que isto não foi feito por cá, vem de longe. (Publicado em 9 Maio 2013)

Na internet
lauramarling.com

Torres

As “filhas” da Kate Bush e da Tori Amos multiplicam-se consecutivamente. A menina tem nome português, não sei se por afinidade, se por ascendência ou se por coincidência, mas acaba aí a lusofonia. Sei que é mais uma que tem a pele nova mas a alma cheia de rugas. Definidas e orgulhosas.
(Publicado em 2 Maio 2013)

Na internet
torrestorrestorres.com

Liberdade

É o maior bem da sociedade.
Liberdade conquistada.
É na liberdade que se expressam as vontades, desejos e opiniões.

É na liberdade que me dizem que eu existo.
Mas eu não existo como quero existir.
E se a liberdade que me dão será só isto
Andar pela vida a existir é resistir.

É na liberdade à bastonada que eu existo.
Na destruição da cultura e do ensino
Esta liberdade com patentes de medinho
Bem policiada por interesses agiotas

É na liberdade que se fecham hospitais
Para oferecer arte é preciso investimento
É na liberdade que não me deixam gritar
Prá minha doença TV é medicamento

Na minha cabeça não vão conseguir entrar
O que aqui me vai não tem taxas nem tem juros
Se ser livre é ser o que querem que eu seja
Pagar todo o mês negócios tão obscuros

Esta liberdade abençoada por gravatas
Manda-me abraçar o empreendedorismo
Com falinhas mansas os ilustres burocratas
Mamam e empurram isto tudo pró abismo

Mas somos muito mais
Somos todos nós
Não somos impostos, temos uma voz
Chega de europas governamentais
Somos portugueses, somos muito mais

(Publicado em 25 Abril 2013)

“Esta é a melhor banda que Portugal me conhece”

(Publicado em 18 Abril 2013)

Stereoboy

Há sempre coisas novas das muito boas neste mundo à margem do colapso. Stereoboy faz-me esquecer que há princípio quanto mais fim. Todo nu pelo universo em traço descontínuo vou eu.

Na internet
www.facebook.com/stereobook

(Publicado em 11 Abril 2013)

A caminho de nada

Balaton é um lago cheio de água a 3 horas de Budapeste. Cheio de nada. Num dia de sol cinzento este vídeo fez-se assim.

(Publicado em 4 Abril 2013)

Penicos de Prata e António Botto

António Botto nasceu no século XIX e se fosse hoje, não só estaria actual como mais mordaz do que muitos que se acham mordazes.
Esta banda faz-lhe jus, bem como uma pomposa vénia. É cabaret que cheira a Inverno lisboeta, com putas e muito amor de vinho tinto.
É bom ser transportado para tão bela sarjeta em bandeja de prata por estes penicos.

(Publicado em 28 Março 2013)

Recuemos

Quando olhei para ti, já tinhas três cabeças e falavas a mil. Era forte. A dança ao nascer do sol parecia ser de outro tempo e os risos de outro planeta. Era muito forte. Tu eras eu e eu era ninguém. Fiz de conta que estava em sintonia porque não queria fugir totalmente dali, mas estava todo dentro de mim com uma violência descontrolada e ancestral. Sabia lá eu quem era. Era uma gosma magnética-membranosa-inestética-voadora. Ficou o mundo todo morto, mesquinho de zoom out vertiginoso, surdo, parvo e nem o fluoride me atrapalhou a ascensão. Afinal, eu e tu éramos toda a gente, mas era segredo.
Quando acordei, ainda tinhas três cabeças mas duas estavam esvaziadas, tipo balão mágico sem estrica e ouvia-se um zumbido que só se ouve depois de raspar um tiro.

(Publicado em 21 Março 2013)

Feistodon

A Feist em jeito de agora escolha, entre o Céu e o Inferno, entre o bom e o poderoso. Isto é mesmo para partir tudo, às vezes um bocadinho Laurie Anderson do lado esquerdo, Sisters of Mercy do lado direito e fico perdido quando percebo que nunca vou ouvir isto sem uma ansiedade tremenda à distância dum fader. Por mais que me incline para o lado mais luminoso, fico sempre curioso com a interpretação das trevas; fiquei mesmo acelerado com isto. Além disso tudo e do facto de isto parecer um exercício, é muito bom.
http://www.listentofeist.com/feistodon
(Publicado em 14 Março 2013)

Rita

Ainda vai havendo alguns segredos mais ou menos bem escondidos.
À Rita, o que me parece que lhe acontece é deixar sair um âmago entre a caricatura e o terrivelmente real. Faz-me lembrar de quando era criança e tudo era permitido, a loucura entre verdades e vice-versa. Quando o expoente leva ao sublime em degraus de exposição de identidade. Esta frase correu-me tão bem que até eu não a entendo, mas quando a escrevi fez-me feliz. A Rita é fascinante. E livre. E vai tocar na Marinha Grande no dia 16 de Março. E eu vou ver.
(Publicado em 7 Março 2013)

https://www.facebook.com/ritacardosomusica?ref=stream

Misty Miller

Não sei porque é que estas almas velhas teimam em voltar. Quando ela nasceu, já estava eu na minha segunda banda e ainda não sabia que aos 37 anos não iria saber quem sou. E volta e meia é isto, aparecem assim já nascidas e sabidas. Agora só falta espalhar-se toda em drogas, ter vários amores desastrosos, partir quartos de hotel, desintoxicar-se, repetir o processo todo, fazer um dueto com a Patti Smith, ser a nova Patti Smith – e, se calhar, temos artista. No entanto, a última música do EP The Girlfriend (que saiu esta semana e pode ouvir-se aqui: https://soundcloud.com/misty-miller/sets/girlfriend-ep) é de quem já trilhou esse caminho várias vezes.
(Publicado em 28 Fevereiro 2013)

www.facebook.com/mistymillermusic

Obsessão

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é uma importunação perseverante, uma perseguição diabólica. Não sei nada disso.
Obsessão é quando conhecer uma coisa não chega, tem de se esmifrar todos os ângulos, saber os porquês, as motivações, as drogas, as ideologias e no fim disso tudo, com mais calma, saber porque é que acontece a obsessão. Neste caso, como em todos, tem que ver com empatia. Ou seja, depois de analisar tudo à lupa da razão chego à conclusão que é tudo subliminar, emocional, hormonal e inexplicável. Do tipo “já te conhecia mas ainda não te tinha encontrado”. Está bem que há associações, mas eu como sonhador não sei gostar disso assim. É magia e pronto. E esta é a minha obsessão da semana, talvez do mês. Talvez de sempre.
(Publicado em 21 Fevereiro 2013)

site
sophiehunger.com

Kinnie Starr

Afinal Queen não é mau, é só uma questão de perspectiva. Além de não magoar os olhos (crush big time), esta cantora canadiana de 42 anos (wtf) produz as suas próprias canções, edita com o dinheiro que os fãs lhe dão, faz-se à vida como deve ser, sem algemas e sem pressões. Descrevem-na como hip-hop aggro groove que deve querer dizer tanto como quase nada e interessa menos ainda: o que eu sei é que isto está carregado de belo, de transpirado, devagar e continuado. Com vontades. Um amigo meu disse-me que não sabe o que eu quero dizer quando uso a palavra “sensual”. Sensual é isto, pá, percebes agora?
(Publicado em 14 Fevereiro 2013)

site
kinniestarr.ca

Coro da Achada

Quero mostrar-vos o Coro da Achada. A Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, em Lisboa, acolhe-os todas as quartas-feiras e saem de lá quando tem de ser. Às vezes espontaneamente, outras vezes com o devido convite. Mostro-vos isto porque é como um comboio que se puxa a ele próprio, anda em loop mas acrescenta. Mostro-vos isto porque é arrepiante, porque é verdade e porque me parece que a resistência está quase só nas vozes que sabem quem são.
(Publicado em 7 Fevereiro 2013)

Site
www.centromariodionisio.org

Chilly Gonzales

“Hello, I’m Chilly Gonzales the musical genius”.
Ou como um cluster pode ser arrogante de perfeito.
(Publicado em 31 Janeiro 2013)

Alexandre Madureira

O Alexandre nasceu no Porto, passou pelas Caldas da Rainha, tem uma ligação qualquer com a Venezuela - mas não sei bem qual – e agora está em Barcelona. A última vez que expôs foi em Amesterdão. Emigrou antes de ser moda (acho que há oito anos) e apesar de ter mostrado o seu talento por cá, foi em Barcelona que o consagrou.
(Publicado em 24 Janeiro 2013)

Site
alexandremadureira.blogspot.pt

Sharon Van Etten

Saiu duma relação desastrosa, converteu-a em canções, rodeou-se de talentos e fez-se gente.
O Kip Malone dos Tv On The Radio encorajou-a e o Aaron Dessner dos The National produziu-a. Estava mais ou menos destinado que a Sharon Van Etten tinha de ser para muitos o que já era para alguns. Introspectiva, tímida de deliciosa e uma grande escritora de canções. “Magic Chords” é do álbum Tramp, editado em 2012.
(Publicado em 17 Janeiro 2013)

Sharon Van Etten – “Magic Chords”

Álbuns
Because I Was In Love (2009)
Epic (2010)
Tramp (2012)

Site
sharonvanetten.com

Lisa Hannigan

Há artistas irremediavelmente ligados a cidades e épocas. A Nellie McKay é Lisboa de 2009, a Lhasa de Sela é Budapeste de 2011 e a Lisa Hannigan é Amesterdão de 2012. Apesar de ter ido ver Archive em Novembro, não me saiu a Miss Hannigan da cabeça por um segundo. Todas as conversas tinham relação com a vida ou a obra, embrulhava as músicas todas em catadupa. No dia do concerto (de Archive) eu sabia onde ela estava. E era longe, longe demais. Estava em plena obsessão. Hoje estou em Amesterdão outra vez, tenho tendência para repetir viagens e por mais que não queira fazer uma analogia com a minha vida, parece-me inevitável. Mas ainda não sei em que sentido. Entretanto, descobrir o que a Lisa Hannigan fez e ainda vai fazer parece-me um magnífico pretexto para adiar descobertas psicanalíticas.
(Publicado em 10 Janeiro 2013)

Lisa Hannigan – “Safe Travels (Don’t Die)” (Live at WFUV)

Álbuns
Sea Sew (2008)
Passenger (2011)

Site
lisahannigan.ie

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