Respingos | Joana Areia

Modo Preguiça parte II

196 dias e 29 respingos depois, posso concluir que aquela que nos faz sentir uma grande vontade de não fazer nenhum, a que com todo o respeito – e umas quantas vénias pelo meio – chamamos preguiça, veio para ficar.
Quer queiramos quer não (e eu aposto mais na primeira opção), ela faz parte do nosso dia-a-dia, vive e convive ao nosso lado, é um pecado capital, que gostamos de praticar de forma constante e sem qualquer pudor, que também toma a forma de animal.
Esta NOSSA Preguiça tornou-se um modo de vida, que não deixa margem para dúvidas: é bom ter-te, sentir-te, ouvir-te, ler-te, rir-te, pensar-te. Tornaste-te uma espécie de Deus que todos veneramos. Hoje, usamos e abusamos de ti.
Este último respingo, escrevo-o debaixo de um chapéu de sol às riscas, em cima de uma areia quente e confortável. À minha frente, o mar azul; por cima de mim, o céu, que – invejoso – lhe imita a cor. Eu a sofrer de uma grande preguicite aguda com o último respingo em modo férias, em modo Preguiça.
Não posso, nem vou dizer adeus. Fiquem apenas com um até já!

Texto de Joana Areia
(Publicado a 25 julho 2013)

Coisas

Esta semana, o Jornal de Notícias voltou a fazer das suas. Já não bastava o Correio da Manhã com as suas primeiras páginas, cheias de cores, formas e às vezes coisas que se parecem com notícias, mas que afinal não passam de coisas, o I com os seus títulos elaborados por malta cuja iliteracia é requisito para… , temos o JN que esta semana bateu os dois, e deu-nos o melhor de dois mundos, como se pode ver aqui.

Do que li destaco:
Ministra foi mostrar o buraco
Se o objectivo era ter a primeira página mais partilhada e comentada de sempre, dou-vos os meus parabéns, foi cumprido. Quanto à objectividade do que se espera ser uma notícia de um jornal com, como os próprios anunciam, 125 anos de experiência… hum… nota zero… A que buraco se referem? O do ozono? Da fechadura? Da agulha? Ou o outro, por onde se expelem coisas como aquelas que vocês escrevem?

Todos à espera do “bebé mais famoso do mundo”
Trata-se do bebé de Kate e William. Eu não estou à espera de nada, mas se são assim tantos à espera, eu pergunto: Mas quem será? Mas quem será? Mas quem será o pai da criança? Eu sei lá sei lá, eu sei lá sei lá.
E como não há duas sem três, aparece outra, no seguimento desta, do mesmo calibre:

Bebé de William e Kate será primo da filha de Beyoncé
…em 23.º grau

Obesidade herda-se através do esperma
E por vezes também nascem crianças… O estudo é de cientistas australianos e diz que a composição molecular do esperma dos pais que sofrem de obesidade contribui para que os seus filhos e netos possam herdar o excesso de peso. Atenção homens (pais) magros com filhos obesos, há aí qualquer coisa que não bate certo.

São coisas, são só coisas…

Texto de Joana Areia
(Publicado a 18 Julho 2013)

O respeitar é irrevogável?

Esta semana há novidades fresquinhas vindas da China. Não, não é o I-Phone 6 que está para chegar. Trata-se de Liu Zhijun, um ex-ministro chinês condenado à morte por corrupção, com pena suspensa. Diz que “ajudou amigos a obter elevados lucros, infligiu perdas colossais ao património público, violando direitos e interesses do Estado e do povo”. Por cá, e tendo em conta que a justiça caminha a passo de lesma, nem milhares de anos bastariam para colocar os que estão no poleiro na mesma situação que o Liu. Assim, segue-se o caminho curto: chutar para canto e absolver.

Condena-se um ex-ministro por corrupção como se condena uma nadadora iraniana, cujo burkini não respeitava o dress code islâmico. Apesar de ter batido um recorde, este foi-lhe retirado, porque as suas formas femininas eram visíveis enquanto saía da água. Era um burkini bastante sensual, que colocava toda uma maçã do rosto de fora.

Pelos vistos, respeitinho é bom e a malta gosta. Li que Paulo Portas disse respeitar a avaliação que Cavaco Silva fez em relação à situação política do país. Agora basta saber se o respeitar de Portas também é como as suas decisões: irrevogável.

E continuando a bater no ceguinho, parece que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros aka vice-primeiro-ministro está preocupado com a balança comercial. O país precisa de exportar! Daí que a explicação para o caso Evo Morales, que afinal sobrevoou o espaço português entre as 12h21 e as 13h56, é que foi apenas recusada a aterragem para não importar um problema para o país. É de valor, até porque o país está a rebentar pelas costuras de tantos problemas. É bom produto, de qualidade, algo que produzimos em massa e até podemos exportar.

Texto de Joana Areia
(Publicado a 11 Julho 2013)

“Swap-se” quem puder

A Assembleia da Républica tornou-se num verdadeiro reality show, ao verdadeiro estilo de “O Último a Sair”. Relvas pediu demissão, Gaspar seguiu-lhe o exemplo e Portas faz o mesmo para não ficar mal na fotografia.  A Agricultura, a Segurança Social estão presas por arames.

É um abandonar o barco às mijinhas. Só o Coelho, a fazer jus ao papel de capitão, diz manter-se firme até ao fim: “não me demito, não abandono o meu país”, afirmou. Como criança mimada e teimosa faz birra: daqui não saio, daqui ninguém me tira! O Primeiro esquece-se é que já o fez há muito tempo, entregando o país de bandeja, lançando-o às feras.

Mas a coisa começa a alastrar-se. Também José Socrates aproveitou a boleia e pediu a exoneração do cargo de engenheiro na Câmara da Covilhã, onde se encontrava, há 20 anos, em regime de licença sem vencimento. Inveja ou terá algo mais em mente?

Entretanto arranjam-se substitutos que deixam muito a desejar. Maria Luís Albuquerque estava (e continua) nas bocas do mundo pelas piores razões. Ainda assim é convidada para assumir a pasta das Finanças. O marido segue-a pari passu e assume funções na empresa (que tão depressa entrou como saiu) que a esposa privatizou, a EDP. Negociatas realizadas à cara podre, mesmo debaixo das barbas dos portugueses. Deixou (há muito) de haver vergonha.

Em directo da Comissão Europeia, Durão Barroso está preocupadíssimo e pede mais responsabilidade política. Qualquer coisa parecida com o que ele fez quando decidiu voar mais alto e deixar o destino do país, que ele afirmou estar de tanga, nas mãos de Santana Lopes.

Por cá, a presidência assume a mesma posição de sempre: o silêncio. Para Cavaco Silva, este Governo só cai no dia seguinte às eleições de 2015. Até lá a festa prossegue numa feira ou mercado perto de si…

Texto de Joana Areia
(Publicado a 4 Julho 2013)

Ideias e idiotas

Há quem use palavras para dissuadir alguém de actuar de certa e determinada maneira. Há quem use os meios monetários. Há quem use “fruta”. E depois há os outros, que preferem algo que também é comestível, mas mais virado para o salgado. Falo dos americanos e da sua ideia peregrina de utilizar carne de porco para produzir balas, que servirão para dissuadir os muçulmanos a cometer actos terroristas.

O slogan da campanha é “Put some HAM in MoHAMmed!”. Segundo a empresa, as balas cobertas em carne de porco poderão evitar que os muçulmanos cometam crimes, com medo de cometerem um pecado caso fossem atingidos por elas.

A isto chamam-se ideias e à malta que as tem, idiotas. A mim parece-me que tem pernas para andar. Por cá era capaz de resultar. As forças de segurança só podem usar as armas em último recurso e, enquanto se espera que o crime aconteça, ávidos de dar uso ao material, podem sacar da arma, abrir um papo-seco e comer uma ‘bucha’.

Ainda falando de ideias e idiotas… o sol era desejado por estas bandas e não é que chegou? Segunda-feira e em força. É sabido que temos de andar protegidos e um chapéu na cabeça nunca fez mal a ninguém, assim como o juízo. Assim, e na mesma linha do ditado “quem anda à chuva, molha-se”, Patrícia Tavares deve ter sido atingida por raios UV demasiado fortes. Ela é o namorado casaram-se em pleno corredor de hipermercado.

O vestido de noiva era da vizinha, a vendedora das alianças acabou por desempenhar também as funções de padre, o copo de água foi ali mesmo, com muitas flores e croquetes. É caso para dizer: no poupar é que está o ganho!

Texto de Joana Areia
(Publicado a 27 Junho 2013)

Viva!

Junho é o mês dos arraiais, dos bailaricos, das ruas vestidas de mil cores, do cheiro a sardinha assada que se envolve e revolve com o aroma dos verdes manjericos nas janelas. O povo festeja com alegria os Santos Populares.

A alegria contagiante é a musa das quadras que surgem, fazendo jus à máxima “de poeta e louco todos temos um pouco”. E porque é de quadras e cantorias que falamos, não há ninguém que, durante este mês, não trauteie cantorias populares.

A música é conhecida de todos – “Marcha do Pião das Nicas” –, assim como o cantor: Carlos Paião. “Viva o Sant’António, viva o S. João, viva o 10 de Junho e a Restauração! Viva até S. Bento, se nos arranjar muitos feriados para festejar”, canta o artista. Pois, aqui é que “a porca torce o rabo”.

Se não chove, pede-se a São Pedro para tratar do assunto (este ano tem sido bastante generoso). Se o problema é trovoada, Santa Bárbara resolve. Se queremos um bom marido, Santo António recebe o pedido. Mas Santo António não é só casamenteiro, também cura as enfermidades, ajuda os marinheiros, encontra as coisas perdidas… Ufa! Não há santo que aguente!

Contudo, este ano, nem os Santos nos podem acudir, pois os feriados, esses, já eram. De S. Bento não teremos nada. Há quem acredite em milagres ainda há os outros, os crentes, os mais corajosos, os que são fiéis ao Dia de São Nunca.

O santo casamenteiro já lá vai. Daqui a três dias chega São João em força e no final do mês São Pedro tem a honra de encerrar os festejos. Por isso há que aproveitar as noites quentes de um Verão que se tem mostrado tímido e sair para a rua, dançar no arraial, fazer parte da tradição. Deixo-vos com esta:

Texto de Joana Areia
(Publicado a 20 Junho 2013)

Liberté, Egalité, Fraterni…quê??

Liberté

França, o berço da liberdade, da igualdade. 224 anos (e muito queijo) depois, esquece-se o significado dessas palavras.

Foram milhares os que se manifestaram contra o casamento gay – mas, contra tudo e contra todos, acabou por acontecer, a 29 de Maio. É curioso, ou nem por isso, que na pátria da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade esta alteração da lei tenha provocado tamanha indignação. São tempos de mudança. É a reviravolta (assustadora) das mentalidades.

Na verdade, os excessos de liberdade levaram-nos a “tomar a liberdade” de decidir tudo sobre a vida de todos, e não deveria ser assim. As opções de cada um deviam ficar onde pertencem, com cada um, sem leis ou referendos.

Mas, até lá, o caminho é longo de tem de ser desbravado, e por isso vitórias como esta têm de ser hasteadas bem alto. Ainda assim, anseio o dia em que não seja necessário hastear as liberdades de cada um como se se tratassem de bandeiras.

Descemos um pouco mais abaixo no mapa e chegamos à Grécia. Aqui nasceu (e morreu) a democracia. Senão vejamos: “Grécia fecha TV e rádio públicas para satisfazer troika.” O país curva-se perante uma troika imponente e encerra meios de comunicação social, silenciando quem não interessa ver e ouvir, numa verdadeira suspensão da democracia.

Por aqui as televisões despendem breves minutos (dois ou três) para nos informar de que a Grécia é o único país da Europa sem serviço público de rádio e televisão. Foi mais um corte nos excessivos lípidos do Estado grego. Por cá também já ouvimos falar em reduzir gordurinhas a mais. Ontem ERT, amanhã RTP?

Mas mudemos de assunto. O sol apareceu! Parece que o Verão chegou em força. Não são previsões da Maya, nem do Paulo de Sousa, muito menos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. O que ‘tá a dar é o Borda d´Água, que, para além de me informar que este ano haverá cinco eclipses, dois do Sol e três da Lua, que a Feira da Melancia acontece a 7 de Agosto em Aljezur, que no quarto minguante inguante de Junho devemos  ceifar o trigo, o centeio e a cevada, também é almanaque para nos dar previsões orçamentais do Governo, não fosse ele conter “todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”.

Texto de Joana Areia
(Publicado a 13 Junho 2013)

As leituras da semana:

Sara Norte saiu da prisão em lágrimas
Parece-me que a explicação mais óbvia para estas lágrimas será a tristeza de deixar a prisão, um sentimento de saudade visto que vai regressar a Portugal, um país de onde muitos querem sair por falta de trabalho. Neste campo para ela não vejo qualquer problema, uma vez que o processo foi tão, mas tão mediático, que é capaz de pisar terras lusas e entrar directamente para dentro de uma casa vigiada 24 horas por dia ou até mesmo ir fazer saltos acrobáticos para uma piscina qualquer.

Estudo põe em causa utilidade do soutien
Eu ponho em causa a utilidade dos estudos.

Governante de Passos em campanha pelo PS por engano
Temos de dar o desconto, porque o rapaz foi nomeado há pouco tempo e ainda não sabe qual a cor da camisola que veste, ou então é dáltónico, ou então está a “afiambrar-se” a um lugar, para qualquer eventualidade que possa acontecer, num futuro próximo.

Desemprego cai 20% em Felgueiras
Todos para Felgueiras e em força!

Sexo oral abre guerra entre Michael Douglas e jornal inglês
E o Oscar para melhor título da semana vai para… Jornal de Notícias!

Texto de Joana Areia
(Publicado a 6 Junho 2013)

Meter água

A semana foi de estreias. Domingo foi noite de Splash, que é qualquer coisa do género: gente famosa a saltar para uma piscina. Não perdi o meu precioso tempo com aquilo a que muitos chamam programa de entretenimento, não. Apenas prescindi de alguns minutos para perceber do que se tratava e, a partir desse momento, a expressão “meter água” fez ainda mais sentido para mim.

Então é assim: tivemos uma Sónia Brazão que aproveitou para fazer a primeira aparição televisiva após o churrasco que fez lá em casa. Tivemos um Toy, que desfilou com um fato de Super-Homem em lycra, realçando as (muitas) curvas que tem, a tentar falar em rimas, com as conversas a que nos tem habituado e que a mim me dão aquela sensação esquisita de vergonha alheia.

Tivemos acrobacias, vertigens, chapas, saltos na água e saltos altos. José Castelo Branco é um dos concorrentes. Chegou de socas e turbante, com qualquer coisa vestida a que a malta chamou fato de banho. Júlia Pinheiro aproveitou para questionar o facto de não se notar a pila no seu fato de banho e o concorrente esclareceu: “Ela está cá e até é bem grande, mas eu consigo pô-la toda para trás.” É a SIC a baixar o nível, é a continuação da estupidificação em massa, é a deselegância.

E por falar em falta de elegância, a situação passou-se com o ministro Vítor Gaspar e o jornalista da SIC, Anselmo Crespo. A exercer as suas funções, o jornalista questiona o presidente do Eurogrupo sobre Portugal e o ajustamento ao défice. A pergunta certa à pessoa certa. O ministro considerou-o deselegante.
Caro Vítor, deselegante é quando, em Portugal, numa conferência de imprensa realizada no Ministério das Finanças, para jornalistas portugueses, tem a ousadia de exigir que as perguntas sejam feitas em inglês sendo as respostas também em inglês. Deselegante é quando quebra as regras que impõe e dá o raspanete na sua língua mãe.

E atenção, não foi uma deselegância qualquer: foi “uma enorme deselegância”. Sempre vi os camaradas jornalistas como pessoas muito mal educadas. Sempre a fazer perguntas. Que coisa, pá!

Texto de Joana Areia
(Publicado a 30 Maio de 2013)

Martim, o jovem empreendedor

Há bem pouco tempo diziam-se cobras e lagartos de Belmiro porque disse isto. Aparece um menino no Prós e Contras a dizer basicamente o mesmo e já é o herói da nação, recebendo aplausos calorosos. Estou a ver aqui dois pesos e duas medidas, e ainda não percebi porquê.

Ter um salário é melhor do que não ter nenhum. Certo. Ter 10 euros no bolso é melhor do que ter 5. Correcto. E onde está a novidade? É o mesmo que dizer a quem ganha o mínimo: “Olha, contenta-te com isso. Pelo menos não estás no desemprego.” Qual é a ideia? Olhar sempre para o lado positivo da coisa, porque podemos estar sempre pior? Verdade. Mas vamos aceitar isso de mão beijada, contentamo-nos com o pouco que nos dão, com um “pelo menos”?

O Martim tem 16 anos. O Martim é um empreendedor. O Martim é um jovem e, como tal, pode ser um insensível ao estado social que a malta perdoa-lhe. O Martim sabe o que quer. O Martim promove as suas camisolas usando as raparigas mais giras da escola como modelos, mas agora “já não servem”. Quiçá servirão um dia, quando o jovem empreendedor se tornar um empresário de sucesso e precisar das tais raparigas para, a troco de um salário mínimo, trabalharem na sua fábrica. Temos pena, raparigas giras. Mas pensem positivo: se estivessem desempregadas, seria pior.

Bajula-se alguém que, do alto dos seus 16 anos, responde, à boa maneira de quem nos governa, que precariedade é melhor do que desemprego. Não se afasta muito da frase épica “o desemprego é uma oportunidade” e aqui caiu o Carmo e a Trindade.

Estranho país este…

Texto de Joana Areia
(Publicado a 23 Maio 2013)

Fátima e Futebol, um triste Fado

Lá para os lados da América Latina há quem comunique com passarinhos através de assobios. Sabe-se também que o clima é mais quente e pode ter consequências desastrosas no que toca à sanidade mental das pessoas.

Mais a norte, em terras do Tio Sam, a culpa talvez não seja do clima. Eu apontava mais para a comida. Há qualquer coisa na fast food que lhes dá a volta ao miolo. Com 83 anos, um tenente da Força Aérea Norte-Americana garante que viu extraterrestres, daqueles que estamos acostumados a ver nos filmes: altos, cinzentos, magros, com braços compridos e três dedos em cada mão. Quem será que inspirou quem?

Por terras lusas também vamos buscar inspiração ao céu. É um pássaro? Não. É um extraterrestre? Não. É Nossa Senhora de Fátima. Ao bom estilo daquele senhor que, em 1968, foi traído por uma cadeira, Cavaco Silva atribui ao divino, neste caso à Sua mãe, os efeitos positivos da última avaliação da Troika. “Foi inspiração de Nossa Senhora de Fátima”, lê-se e relê-se e continua-se sem acreditar que isto possa ter sido dito, em público, pelo Presidente da República, que não mede as (poucas) palavras que profere.  Já agora, sr. Professor, o que aconteceu ao País foi obra de quem? Salvador Dalí? Só pode, tendo em conta estes fenómenos surrealistas do Estado. Que Nossa Senhora o perdoe…

E já que falamos de fenómenos de massas, como a religião, podemos falar de outro que, da mesma forma, mobiliza milhares: o futebol. Campeonatos, taças e ligas, vitórias e derrotas são os temas que dão e vão dar que falar nos próximos dias. Até lá, o País anda alheado da realidade. Crise, qual crise?

Esta é a altura ideal para o Governo – se é que ainda se pode definir como tal algo que vai tão desgovernado – levar o País ao seu triste fado: a bancarrota. Sem ruídos e alaridos, e que Deus nos proteja!

Texto de Joana Areia
(Publicado a 16  Maio 2013)

De pequenino é que… se assina a declaração de honra

Uma declaração de honra sem qualquer valor legal é assunto que já fez correr muita tinta durante esta semana. Por aqui também algumas linhas serão dedicadas ao tema.

Os exames tiveram início segunda-feira e, antes dos 10 minutos para preencher o cabeçalho, os alunos do 4.º ano tinham de assinar uma declaração, garantindo que não tinham consigo telemóveis ou qualquer outro equipamento de comunicação, honrando o compromisso.

Ora, aqui é que a porca torce o rabo, visto que os alunos podem ter dúvidas acerca da palavra honra. Se eu tivesse a árdua tarefa de os vigiar durante as provas, explicava o conceito da seguinte forma: honra é aquilo que falta aos governantes portugueses quando tomam decisões que, antes de serem eleitos, prometeram que nunca executariam.

Um dia mais tarde, um destes alunos vai enveredar pela carreira política e, quiçá, alcançar o cargo de ministro. Nessa altura, vai certamente assinar declarações, garantindo que não vai roubar os contribuintes, isto tudo com muita honra, mas sem qualquer valor legal.

E do ciclo passamos para o superior. A altura é de festa académica e não há festarola que não tenha um dia dedicado à música pimba. Mas, atenção, cantores de música popular: cuidado com os trocadilhos marotos, porque podem sair-vos caros.

João Miguel Costa, cantor do “Cacei o Grilo”, foi processado pela vizinha Alzira, por difamação e injúria, que alegava que o tema lhe era dirigido. No fim de contas, a coisa não deu em nada. O tribunal não condenou o cantor,visto que a “música pimba encerra a possibilidade de as suas letras serem interpretadas de formas diferentes por quem as ouve, pelo que só assim alguém pode considerar que ‘caçar’ é sinónimo de ‘copular’ e ‘grilinho’ de ‘vagina’”. Porque a música é mesmo isso, cada um dança como quer e interpreta como bem entender.

Texto de Joana Areia
(Publicado em 9 Maio 2013)

No Primeiro de Maio

Ontem foi Dia do Trabalhador, de todos os trabalhadores. Diz-se que contra factos não há argumentos, mas é indiscutível não falar dos mais de 900 mil desempregados, que a bem ou a mal também celebram este dia.

Nas ruas viram-se os sindicatos, concentrados, em manifestação, em convívio, ouviram-se as palavras de ordem de sempre, leram-se as mesmas palavras, nas mesmas faixas, como se nada tivesse mudado desde 74 (e, se calhar, até não mudou).

Neste dia, ficamos a saber que o Governo declarou que não pode afrouxar a vigilância em relação ao desemprego. Fico sem saber qual a definição de estar atento…

Algo que desconhecia e que também fiquei a saber é que, a partir de ontem, as bebidas brancas estão proibidas a menores de 18 anos. Já os menores de 16 não podem provar nem cerveja, nem vinho. Portanto, aos 17 podem encharcar-se à vontade com o belo do sumo de cevada e o tinto, e quando atingirem a maioridade, nada mais nada menos do que um aninho depois, podem enfrascar-se à vontade que o Governo deixa.

Para terminar, quero falar-vos de algo a que uns chamam psicadélico e outros bizarro. Depois há os outros, aqueles que lhe chamam feminino. Falo das novas chuteiras da Puma, que são apresentadas pelo futebolista Falcão, onde sobressai a cor rosa. Ah, mentalidade mesmo pequenina esta! Lá por terem pintas cor-de-rosa são femininas. Sim, porque toda a gente sabe que o cor-de-rosa é para meninas e o azul para meninos. Por favor…

Texto de Joana Areia
(Publicado a 2 Maio 2013)

Os homens estão cada vez mais bonitos

Nos anos 90, a cantora portuguesa Chiquita previa o futuro ao lançar a música, Os homens estão cada vez mais bonitos. A preocupação com a imagem trouxe novos conceitos, como os metrossexuais e até mesmo os motorsexuais, malta que alimenta o ego das mais variadas formas desde que tenha sempre um espelho à mão.
Agora já vemos os homens nas perfumarias, nas esteticistas, a perder tempo a escolher o melhor creme hidratante, a levar-nos, a nós mulheres, à loucura quando nos convidam para ir às compras e passam horas metidos dentro dos provadores, a deliciarem-se com a imagem que vêem no espelho, colocando as mãos nos bolsos, e inclinando o corpo de um lado para o outro, como quem está num verdadeiro desfile.
Mas ser bonito nem sempre é uma vantagem, e pode tornar-se num verdadeiro pesadelo. Para os lados orientais, três homens foram forçados a abandonar a Arábia Saudita por serem demasiado bonitos. Parece mentira, não é? Mas aconteceu. O medo era de que as mulheres se sentissem tentadas e se rendessem à sua beleza.

No país ao lado, o aviso vai para os turistas, esses grandes malucos que quando vão para a praia usam calções e biquinis. O calor é muito, mas nada de abusos. Pelas praias podem ser vistos letreiros que indicam que aquelas peças de roupa não são bem-vindas e pede-se que usem “roupas mais modestas, cumprindo as regras da moralidade pública”. Naquelas praias só entra quem tem burkini (sim, isto existe, bem como o face-kini para proteger o a cara do sol), ou, para os dias mais frios, quando as temperaturas atingem os 30 graus, aconselha-se o uso de “hijab”.

PS: Hoje, 25 de Abril, podia ter falado de Liberdade, mas preferi fazer as coisas ao contrário e falar da falta dela. Haverá melhor maneira de lhe darmos valor?

Texto de Joana Areia
(Publicado a 25 Abril de 2013)

Há coisas fantásticas, não há?

Há coisas incríveis, que por momentos roçam mesmo o inacreditável. Lembram-se quando respinguei, há algumas semanas atrás, acerca de Stan, o entregador de comida ao domicílio, que nas horas vagas fazia uns biscates como super-herói, vestido de Batman, e entregava amigos à polícia? Pois é, passou para o outro lado, o dos maus. Tornou-se ele próprio um vilão e toca de iniciar-se na carreira de ladrão. Que mau exemplo para o Robin, realmente…

Seguindo a mesma linha de ideias, do cruzar realidade e ficção, pergunto: O que têm em comum Peter Griffin e o rebentamento de bombas durante a Maratona de Boston? Nada, dirão os leitores. Já os fanáticos por teorias da conspiração não vão na mesma conversa. Para mim merecem uma vénia, tal é a criatividade com que relacionam um episódio da série televisiva Family Guy com o acontecimento. Aqui e aqui podem ver-se os vídeos.

Por cá a coisa também pode pegar. As atitudes dos artistas que temos ao comando do país podem muito bem servir de inspiração para actos do mesmo género. Infelizmente não vou nessas cantigas. Camisas às riscas, pretas e brancas de preferência, fazem a malta parecer mais volumosa. A mim não me favorecem.

E agora, para finalizar, quando já tínhamos chegado à conclusão de que realidade e ficção são coisas distintas, eis que surge Tom Cruise para nos mostrar que, afinal, tudo o que parece é. O actor esteve recentemente na Irlanda para a estreia do seu novo filme, Oblivion. Na passadeira vermelha, Tom esteve à conversa com os fãs durante cerca de 90 minutos. Coisa rara e impressionante, certo? Mas sabem como Cruise se manteve tão bem disposto e a aguentar o frio que se fazia sentir na cidade de Dublin? Porque contou com a calorosa prestação do seu personal heater, que manteve o actor sempre quentinho, a receber as ondas de calor do seu aquecedor portátil. Luxo, loucura, estava mesmo um frio de rachar, ou serão os efeitos de ter tomado uma boa dose de cientologia?

Texto de Joana Areia

(Publicado a 18 Abril 2013)

O regresso dos que nunca foram

Sócrates na RTP. Relvas no Parlamento. Porque não Carlos Cruz na Casa Pia? E o filme chama-se “O Regresso dos que Nunca Foram”. Tomem atenção à sinopse.

O “engenheiro” cansado da cidade-luz e da vida enfadada que levava, um dia chegou à conclusão de que afinal gostava mais de Portugal do que de chocolate: a la prochaine la France, vive le Portugal! À sua espera 1,6 milhões de portugueses, se as contas da GfK desta vez baterem certo. De acordo com a mesma empresa, o segundo programa mais visto do dia foi a novela Dancin’ Days, da SIC, seguida da novela Louco Amor, da TVI. Conclusão, a malta curte é novelas ao bom estilo mexicano.

O “doutor” que cessou funções governativas, depois de centenas de dias a frequentar as aulas de política de bolso, está agora apto para regressar, desta feita para uns assentos situados um pouco mais abaixo, mas nem por isso menos importantes. O menino “Mamã dá licença? Está licenciado” vai entrar pela porta do cavalo e passar de imediato para burro, um degrau abaixo na hierarquia. Mas, também nesta área se sente completamente confortável, tal como os assentos.

Filme que é filme tem de ter efeitos especiais e fenómenos inexplicáveis. A acção passa-se em pleno Marvão, onde foi descoberta uma cratera, com cerca de 100 metros de profundidade. Obra de extraterrestres? Naaa. Simplesmente a Mãe Natureza a revelar o buraco em que estamos metidos.

Texto de Joana Areia

(Publicado a 11 Abril 2013)

Diz-me com quem almoças, dir-te-ei quem és

Miguel Gonçalves é a estrela do momento e foi descoberto por Relvas através do Youtube. Daí até ser embaixador do Programa Impulso Jovem foi um saltinho, ou melhor, um almocinho. Partida do Dia das Mentiras que chegou com quatro dias de atraso? Não. Apenas uma surpresa do Governo que quis deixar-se do humor tradicional para passar a apresentar um stand-up.

Mas deixem-me falar-vos do Miguel. O rapaz é simples, acredita em sonhos e super-heróis. A vida sorri-lhe. Mas para chegar onde chegou, com certeza, foi preciso “bater muito punho”, expressão pela qual ficou conhecido.  O rapaz mostra-se empreendedor, dinâmico, activo, mestre das start-ups, guru do pitch e que fala, fala, fala e não diz nada.

Durante uma sessão da TEDx Youth explicou o conceito de “relvismo” como ninguém. A formação académica tem pouco (ou nenhum) valor, é uma mera chave de fendas, “muito boa e muito potente”, mas chave de fendas. Trocado por miúdos, não interessa qual a tua qualificação, se é muita ou pouca, porque és um produto e tens de te saber vender. Se não encontras emprego, o problema é teu, não te vendeste o suficiente – é uma espécie de prostituição do século XXI. O embaixador diz que temos de seguir “o que nos faz quentes por dentro, o que nos parte a respiração”, para chegar ao trabalho de manhã “com vontade de botar paralelos na organização”. Ficamos a saber que somos um país mágico porque todas as crianças têm um Magalhães e que “se não os temos a tremer, é porque não está a acontecer”. Todas estas pérolas misturadas com palavras imperceptíveis, expressões em latim e anglicanismos de três em três palavras.

O Miguel nunca enviou um currículo e aconselha os jovens a fazerem o mesmo. O Miguel arranja soluções de emprego para jovens de 23 anos; as pessoas de 45 anos estão fora, desenrasquem-se. O Miguel é ignorante em relação às polítícas do Governo. Quando questionado sobre as medidas de austeridade, o Miguel pede para lhe fazerem perguntas às quais consiga responder.

E aqueles que têm de abandonar os estudos, Miguel? “A um jovem estudar custa 1200 ou 1300 euros por ano, são 100 euros por mês. Amigo, se tu com 20 anos não consegues arranjar uma maneira de gerar 100 euros de riqueza por mês para pagar o que estudas, vais ter muitos problemas na vida, porque até a vender pipocas no centro comercial se arranja dinheiro para pagar 100 euros por mês.”

O Miguel até pode perceber muito de clusters, input, know-how e feedback, mas ao fim e ao cabo não tem olho para o negócio. Sr. Embaixador do Impulso Jovem, vai trabalhar a custo zero? Ou enquanto é Embaixador faz um part-time na Feira Popular a vender pipocas?

Para ver/ouvir o dito cujo basta clicar aqui ou até mesmo aqui numa reportagem da SIC, intitulada Momentos de Mudança, que começa assim: “Eu passo as minhas camisas porque é uma questão de princípios.” Preparados?

Texto de Joana Areia
(Publicado a 4 Abril 2013)

Constatações

Ao que i(sto) chegou
O drama, a tragédia, o horror. Irina Shayk bloqueou a irmã de Cristiano Ronaldo de uma rede social. Li a “notícia” através do ionline e por momentos pensei que tinha subscrito o Correio da Manhã. Ainda assim, e vendo as coisas pelo lado positivo, a TVI já tem argumento para uma nova novela.

Se conduzir não…
Estava familiarizada com o conceito de metrossexual, mas desconhecia outra vertente da coisa, os motorsexuais , que é o mesmo que dizer homens que enquanto conduzem se olham ao espelho. Ver se o cabelo está impecável, se o tom de pele é perfeito, ou uma espécie de ‘estou a fazer-me ao espelho como se de um engate se tratasse’ são atitudes destes narcisistas do espaço motorizado que já provocaram milhões de acidentes.

Djesus Uncrossed
Chuva e fim-de-semana são sinónimos de sofá e filmes. Este não foge à regra, com a vantagem de ser prolongado. Como manda a tradição, a Semana Santa traz-nos o cinema religioso.  A saga de Ben-Hur, A Paixão de Cristo e Jesus de Nazaré já entraram nas nossas casas vezes sem conta e a história é sempre a mesma, com a desvantagem de já conhecermos o trágico final. Mas, e se a história afinal fosse outra? Porque nem tudo é o que parece, quem gostou de Kill Bill, Pulp Fiction, Inglourious Basterds e Django Unchained não pode perder dois minutos de No More Mr. Nice Jesus.

Vejam aqui:

Texto de Joana Areia
(Publicado em 28 Março 2013)

A China aqui tão perto

Tornou-se um hábito para alguns portugueses, lá do alto dos seus poleiros, falarem de barriga cheia. Sabe bem, depois de um largo repasto, deixar cair o corpo num cadeirão e proferir disparates. É uma actividade que se pratica facilmente.

Falar sem pensar é o desporto de eleição das elites políticas e económicas e, esta semana, Belmiro de Azevedo ocupou o primeiro lugar no pódio. A ideia do empresário, que faz parte do Top 10 dos mais ricos de Portugal, é que isto só lá vai com salários (ainda mais) baixos, uma espécie de “mão-de-obra com 50 por cento em cartão”.

Às ideias do “idiota” podemos acrescentar algumas sugestões que certamente serão do seu agrado, visto que se trata de reduzir, cortar, baixar. Reduzimos o preço dos produtos vendidos nas suas superfícies comerciais, cortamos nos seus lucros, baixamos a sua reforma, diminuímos o número de clientes nas suas lojas, tornamos menos numerosos os euros da sua conta bancária.

Parece que o senhor, cuja fortuna foi avaliada em 1114 milhões de euros, anda distraído. Na Europa onde eu vivo, os três países com as maiores taxas de desemprego são Portugal, Grécia e Espanha. Curioso é saber que por aqui o salário mínimo é dos mais baixos. Ao contrário de países como França, Holanda ou Inglaterra, onde acontece exactamente o inverso.

Dizer que não há emprego sem salários mínimos de miséria é conversa de quem está habituado a enriquecer e viver à custa do trabalho dos outros. É claro que há países que se desenvolvem devido à mão-de-obra barata, como a China. Mas, senhor Belmiro, já temos as lojas – e são aos montes –, para quê trazer também a escravatura e as condições de trabalho desumanas? Quando quiser ir à China, eu própria apanho um avião.

Texto de Joana Areia
(Publicado a 21 Março 2013)

(Non) habemus papa(m)

cartoon
Foi fumo branco que saiu pela pequena chaminé, para felicidade dos milhares que esperaram, pacientemente, para conhecer quem vai calçar as sandálias de Pedro. Desta vez não houve enganos, nem margem para dúvidas. Foi tudo preto no branco, a máquina de 75 anos de idade deu ares de que está em forma.

No Vaticano esperou-se pelo Papa, tal como acontece um pouco por todo o mundo. Contudo, os desejos aqui vão mais além, são mais ambiciosos, a malta quer papas, que é como quem diz comidinha, paparoca, algo para entreter a fome e, se for possível, para a matar.

Defensores dos direitos humanos, como dizem ser, os senhores das batas brancas, solidéu vermelho – que é como quem diz barrete – e uma espécie de poncho a fazer pendant, ainda não se devem ter apercebido do que se passa. A mim causa-me uma certa irritação que se passeiem alegremente ostentando vestes luxuosas, bordadas a ouro e prata.

Recordo a especulação causada em redor dos sapatos vermelhos, em couro, de Bento XVI, que se diziam ser Prada, o que não agradou aos fiéis. Sim, até porque quem veste Prada é o diabo! Mas não se fica por aqui.

O Papa viaja em primeira classe num Boeing 747. Quando o trajecto é mais curto, apanha o Papamóvel. Nas férias é mais comedido e aproveita a deixa de “vá para fora cá dentro”, neste caso para Castel Gandolfo onde, durante dois meses, desfruta de um palácio, onde servem cerca de cem empregados, com piscina, uma espécie de ginásio e muitos jardins.

Na verdade, não entendo os fiéis. Acreditam e defendem a Igreja, numa lógica de “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. Para eles, apenas umas palavras: “Com papa(s) e bolos se enganam os tolos”.

Texto de Joana Areia
Cartoon de Antero Valério
(Publicado em 14 Março 2013)

Vou ali indignar-me e já volto

A semana que passou foi rica em acontecimentos, daqueles que dão muito que falar, e é disso que nós gostamos. Fazem rir, chorar, deixam-nos boquiabertos, indignados, revoltados ou até orgulhosos. Vamos lá fazer a ronda!

Pelo Vaticano tenta-se encontrar consenso e data certa para um conclave, destinado a atribuir as “sandálias de Pedro”, e já não há pachorra para as especulações papais. Para animar a malta, um falso bispo resolve disfarçar-se de cardeal e infiltrar-se. Trajado a rigor, a única falha foi a bata ter um tamanho mais curto do que o modelo padrão. Já diz o ditado: Patrão fora, dia santo na loja.

Mas não pensem que é só no Vaticano que há adeptos de disfarces. No Reino Unido, a coisa também tem a sua graça, mas em vez de uma bata, temos um Batman. O “super-herói”, mais conhecido por Stan, o entregador de comida, revelou ser também um entregador de ladrões à polícia. Chegou à esquadra, deixou o larápio e desapareceu misteriosamente na noite. Trocando por miúdos, Stan vestiu-se de Batman para assistir a um jogo de futebol. Bebeu uns (muitos) copos. O amigo pediu que fosse com ele à esquadra. Stan foi. Ponto. Da história apenas se destaca a indignação de Stan, quando os jornalistas salientaram o facto de existirem umas gordurinhas a mais no “super-herói” que eram, nada mais, nada menos do que um pijama que Stan trazia por baixo da máscara. Maldito sejas frio do Reino Unido!

Há malta capaz de tudo, mas não é só lá fora. Veja-se o caso daquele grupo de marmanjos que, com parcas reformas – uns milhares de euros, coisa pouca –  resolveram que também deviam indignar-se. Nasce assim o Movimento dos Reformados Indignados e Filipe de Jesus Pinhal é o homem de quem se fala. O líder do Movimento é ex-presidente do BCP e a sua reforma de 70 mil euros vai receber um corte abrupto, passando a receber apenas 14 mil euros. Não pensem que mudei de assunto e passei a falar de coisas sérias, não. Isto para mim é a verdadeira anedota. Filipe, se me está a ler, siga o meu conselho e seja mais criativo. Reformados há muitos e indignados estamos todos. Mude-se o nome do movimento para Movimento dos Reformados Cujos Milhares Não Chegam para as Despesas, Movimento dos Sem Vergonha na Cara ou Movimento dos Reformados de Luxo. Qualquer coisa que vos distinga. Aposto que o número de apoiantes do seu grupo aumentará exponencialmente.

Texto de Joana Areia
(Publicado a 7 Março 2013)

Corte e Costura

Curto assimétrico, com franja, ondulado, a direito, em camadas são algumas das tendências de cortes de cabelo para 2013. É à escolha do freguês, porque por aqui (ainda) há esse direito. O mesmo não podem dizer os norte-coreanos. O país apenas autoriza 28 cortes de cabelo, 18 para mulher e 10 para homem.

Se usar cabelo curto, ficamos logo a saber que se trata de uma senhora casada. Às solteiras é autorizado um pouco mais comprido. As instruções são claras, não há que enganar.

Quanto aos homens, não estão autorizados a deixar o cabelo crescer mais do que cinco centímetros, excepto os mais velhos, que podem cometer a loucura de deixar crescer, crescer, crescer até atingir os sete centímetros de comprimento. Ainda acreditam que o tamanho não interessa?!

Por estes lados ocidentais, os cortes não são efectuados em regiões capilares. Não. Cortam-se as reformas e indemnizações, aparam-se os salários e prestações sociais, escadeiam-se as pensões. Parece que as tendências para 2013 são os curtos e nalguns casos vai ser mesmo necessário dar uso à máquina com pente zero. Cada vez mais o ambiente é de cortar à faca e, nestes casos, o melhor é cortar o mal pela raiz.

Não se pode falar de corte sem se falar da técnica que dá uso à linha e à agulha como ninguém: a costura – neste caso concreto, a alta costura.

Domingo foi noite de Óscares e de desfile na passadeira vermelha. Curtos, compridos, estilo cai-cai, sem decote, com decote, brancos, azuis, vermelhos. Houve para todos os gostos. E também neste tema, os países do Ocidente têm voto na matéria.

As notícias deram conta de uma alteração na imagem de Michelle Obama, pela agência de notícias iraniana Fars, quando anunciou que o filme Argo era o vencedor do Óscar para melhor filme. Se todos nós vimos a primeira dama dos Estados Unidos com um vestido prateado com um decote e os ombros descobertos, em Teerão preferiram “costurar” o modelito, subindo-o até ao pescoço e colocando-lhe manga curta, cobrindo o decote (o que assentou que nem uma luva). Fossem eles também capazes de eliminar – com a mesma facilidade com que aqui souberam acrescentar – de uma vez por todas as execuções públicas, flagelações, lapidações e outras punições cruéis, esses sim verdadeiros atentados ao nosso olhar.

Estranho mundo este…

Texto de Joana Areia
(Publicado a 28 Fevereiro 2013)

Bota shake!

Propagam-se num abrir e fechar de olhos e, de repente, já milhões estão contagiados. Falo, pois, em viroses. Mas não é uma simples gripe, uma varicelazita ou até mesmo pequenas verrugas, não. Falo dos fenómenos internáuticos, de vídeos que, sem qualquer razão aparente, se tornam autênticos vírus capazes de provocar uma coceira de nervos do caraças.

A cada minuto são colocadas cerca de 48 horas de vídeos no Youtube. Mas apenas uma percentagem muito pequena se torna viral e é vista por milhões de espectadores. O vídeo em causa tem apenas 30 segundos e uns marmanjos a dançar ao som de “Harlem Shake”. E pum! Em duas semanas, quase 13 milhões de visualizações. Está tudo dito: este é o sucessor de “Gangnam Style”.

Ele há militares, pessoas com fantasias exuberantes e até figuras públicas. Por cá, o vírus também já contagiou a malta. Aqui podemos ver o Gordo, e toda uma equipa de produção, a dançar como se não houvesse amanhã. Digamos que é bastante fácil: basta fazer a posição de pessoa inanimada (mas de pé), rodar os braços ao estilo dos Cabeçudos, vestir o que vos der na telha e… Bota Shake!

Amigos do “shake, shake, shake”, conheço um senhor que dá uns toques na área musical. Não passou pelo conservatório, não teve aulas, mas arrisca tudo e canta (ou pelo menos tenta). Não há cá vergonha, medo, nem uma pontinha de timidez de se expor ao ridículo. Que dizem? Parece-me que se enquadra na perfeição.

Em suma, são aos milhares, aparecem do nada, brotam como cogumelos. Eu tenho um preferido e que traduz exactamente o que sinto quando ouço “Con los Terroristas”. Vejam:

Texto de Joana Areia
(Publicado a 21 Fevereiro 2013)

Portugal: um país onde Inverno é pleno Verão (pelo menos durante três dias)

Por esta altura já estamos todos bem instalados no período pós-folia. A calma regressou, as serpentinas e confetti assentaram, os foliões despiram as máscaras – falo daqueles que ainda tinham alguma roupinha no corpo para despir –, o país parou de sambar.

Mais uma vez, o frio e a chuva voltaram a fazer mossa e deram cabo dos cortejos. Surpresos?! Pois é, meus caros, por aqui ainda estamos no Inverno, a mais fria das quatro estações do ano. Mas nós insistimos e continuamos a tentar imitar o Carnaval do país irmão, onde, por esta altura, estão cerca de 40 graus à sombra.

Mas biquínis e sambinhas à parte, o que se torna ainda mais ridículo é o facto de, ano após ano, se fazerem investimentos de milhares de euros numa festa, cujo sucesso depende de algo tão inconstante como a meteorologia. É Fevereiro, logo, chove.

Foi também em pleno Carnaval que Sua Santidade decidiu surpreender o mundo e rescindir contrato para ir para casa relaxar. Ainda bem que estava ao serviço do Todo Poderoso. Se fosse por cá, o pedido de reforma antecipada  podia trazer-lhe alguns dissabores, pois não poderia escapar às penalizações, que são mais que muitas.

As notícias dão conta de que dois cardeais portugueses estão na linha de sucessão. Pelas redes sociais corre ainda um terceiro nome: Miguel Relvas. Parece que o ministro foi baptizado, assistiu a meia dúzia de missas e acredita possuir as equivalências suficientes para assumir o cargo. ‘Bora, senhor ministro, que esta vida são dois dias e o Carnaval são três!

Post Scriptum: Hoje é um dia especial, 14 de Fevereiro, mais conhecido como Dia dos Namorados, ou dia de São Valentim.Pensavam que me tinha esquecido? Não. É claro que podia ter começado o meu texto com as lamechices do costume, tão associadas a este dia. Coraçõezinhos vermelhos, ursinhos de peluche, chocolatinhos, romantismo à flor da pele, um verdadeiro desfile ao som de “Love is in the Air”. Mas para mim hoje o som é outro. É dia de São Sigur Rós. Amoroso, não?

Texto de Joana Areia
(Publicado em 14 Fevereiro 2013)

De Jonet a Ulrich venha o diabo e escolha

São 16 horas de uma terça-feira banal. Faço um zapping e pum! A criatura aparece em grande plano na ETV, em directo da Assembleia da República. E pronto: começa-me a mexer com os nervos!

BPI, audições, orçamento, spreads, percentagens são palavras que me passam ao lado. Na minha cabeça só se ouvem as “pérolas” de Ulrich, um homem que de cada vez que fala só lhe saem inconveniências. Chamam-lhe o “provocador por excelência”, porque de cada vez que verbaliza o que pensa tem o dom de irritar muita gente. A mim com certeza.

Diz que o país aguenta mais austeridade, e questiona: “Se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela situação e sofrer tanto, aguentam, porque é que nós não aguentamos? Parece-me uma coisa absolutamente evidente.” A mim parece-me absoluntamente evidente que o senhor sofre de ilusão óptica e vive numa qualquer outra realidade distante daqui.

Faz-me lembrar Isabel Jonet, que deve viver no mesmo mundo acima descrito, apenas com a diferença de que na rua de Jonet não há sem-abrigo, logo, não há miséria – e é por isso que, segundo a responsável pelo Banco Alimentar contra a Fome, vamos “ter de reaprender a viver mais pobres”.

Talvez fosse uma farpa para um economista – infelizmente traído pelos números -, que lamenta que a reforma não chegue para as despesas. Pois é, caro Aníbal, vamos ter de reaprender a viver mais pobres ou, no seu caso, um pouco menos ricos. Para si, Jonet, digo-lhe: em Portugal há 10 385 crianças que vão para a escola com fome. Se isto não é miséria, não sei o que será.

Chego à conclusão de que Portugal é o habitat perfeito para o desenvolvimento de criaturas deste calibre. Aconselho as autoridades da saúde a procederem ao urgente internamento dos mesmos numa qualquer unidade hospitalar psiquiátrica.

Texto de Joana Areia
(Publicado em 7 Fevereiro 2013)

Quando skinny não é só um modelo de calças

Quando skinny não é só um modelo de calças

Ilustração de Maitena, cartoonista argentina

A expressão que ouvi, durante anos a fio, o meu avô dizer – Quem não serve para comer também não serve para trabalhar – ganhou verdadeiro significado quando li um artigo sobre a recente implementação de uma lei, em Israel, que proíbe modelos demasiado magras de aparecerem em desfiles de moda ou campanhas publicitárias.

A lei pretende combater a idealização da magreza, o culto do size zero. Certo é que zero é algo que não existe, assim como o tamanho das modelos.  Para termos a noção, aquele tamanho corresponde a um 32, ou seja, vestir 0 e às vezes atingir o 00 (o mesmo que ser um zero à esquerda a vestir). Equivale a medir 79 cm de busto, 56 de cintura e 81 de anca. Para tornar as coisas ainda mais ridículas, pode dizer-se que uma criança de oito anos (com tamanho e peso adequados à idade) também tem 56 cm de cintura e um pouco menos de anca. Absurdo, não?

A culpa é atribuída à indústria da moda, que continua a preferir ter nas suas passarelas verdadeiros “paus de virar tripas”, justificando que as roupas assentam melhor em corpos isentos de gordura.  A palavra de ordem é skinny, não só para as calças mas também para as pernas, e a malta do mundo da moda continua a pôr de lado esses pecadores do demo, que fazem birra e cometem a loucura de se alimentarem.

Apesar de tudo, ainda há pessoas com sorte, como por exemplo Heidi Klum. A modelo orgulha-se de a sua carreira nunca ter sido prejudicada por não ser magrinha, essa maluca! Contudo, é com tristeza que afirma nunca ter feito trabalhos de passarela, porque estava sempre enorme. “I couldn’t get the clothes over my hips”, lamenta a pobrezita do alto dos seus 1,77 metros, 62 quilos e quiçá, a arriscar tudo, a vestir um 36/38. A mim só me ocorre dizer-lhe: Bucha!

Texto de Joana Areia
(Publicado em 31 Janeiro 2013)

Ir é o melhor remédio

Lomo de Joana Areia

Lomo de Joana Areia

A Preguiça aconselhou, a curiosidade disse “Vai!” e eu fui.
Mochila às costas, máquina fotográfica em punho, mapa da Rota dos Escritores na mão. Fiz-me à estrada. Neste caso fiz-me às ruas e ruelas, travessas e largos de Leiria. Saí pela fresca – já diz o velho, e sábio, provérbio: De manhã é que se começa o dia.

Estaciono no ponto 5, junto à Igreja de São Pedro e aproveito para dar um salto ao Castelo. Desço em curva até à Sé. Click. Primeiro momento registado. Aqui, paro um pouco e contemplo o que me rodeia. Não é a primeira vez que estou neste local, mas a experiência é única no que toca a fazer uma visita guiada a mim mesma, sabendo que estou a pisar o mesmo chão que os escritores, que por ali deambularam e que naquele lugar se inspiraram. Basta fechar os olhos por alguns instantes e fazer uma viagem no tempo, imaginar.

1, 2, 3 e 8, check. Ponto 10. Vêm-me à memória lembranças da adolescência. O Colégio, as aulas de Português A, Os Maias, a viagem Meirinhas-Leiria, num Fiat Uno branco, com três amigas, um operador de câmara e a sua assistente, para um trabalho de grupo sobre Eça de Queirós. Rio – e muito – na Travessa da Tipografia, causando espanto ao casal que passa. Obrigada, Eça!

Faço uma pausa e almoço com Rodrigues Lobo na Praça. Sigo o roteiro em direcção ao Jardim Luís de Camões e atravesso o rio até ao Parque da Cidade para mais alguns registos fotográficos.
Caminho até ao antigo Rossio e visito os amigos de Miguel Torga e Afonso Lopes Vieira. Entre curvas e contracurvas, chego ao Terreiro. Faço um pequeno desvio até ao Convento de Santo Estêvão e continuo a viagem pela Rua Direita para regressar ao ponto inicial. O roteiro terminou.

Já em casa, sentada num sofá em frente à lareira, coloco as memórias em formato de papel. Cada um terá certamente uma visão diferente da visita, relembrando momentos ali vividos, descobrindo ruelas, dando significado a lugares ou edifícios que antes passavam despercebidos, dando valor a uma cidade que muito tem para contar. Foi isto que descobri. Ir é mesmo o melhor remédio.

Texto de Joana Areia
(Publicado em 24 Janeiro 2013)

2.55

Na passada quinta-feira abri o Facebook e o caos estava instalado, a indignação era total. Tudo por causa de um vídeo promocional da marca Samsung onde Filipa Xavier – mais conhecida por Pepa – fez furor. A blogger de moda, entre outros desejos para 2013 (como sorte e mais trabalho), dizia que gostava de ter uma mala Chanel, daquelas clássicas, pretas, que combinam com tudo. A Chanel 2.55 passa a andar nas bocas do mundo.

Assumindo o seu desejo consumista, Pepa não afirmou que queria que lha oferecessem, que iria assaltar um banco para conseguir o dinheiro. Não. Apenas que, com as suas poupanças, poderia vir a comprá-la. Na verdade, uma Chanel 2.55, apesar de cara, parece material de qualidade e pode durar toda uma vida. E, isso sim, é poupar dinheiro.

Fez-se uma tempestade num copo de água. Os mais moralistas falavam da crise, do materialismo, excomungando Pepa por ter verbalizado tamanha heresia.

Sinceramente, estou-me nas tintas para os desejos de Pepa. Quantos dos que criticaram não desejavam também ter uma mala Chanel (que até é gira e realmente faz pendant com qualquer trapinho), ou um tablet, um smartphone, um carro topo de gama… Aliás, quantos não possuem já estes objectos, que para tantas pessoas ainda são considerados um luxo? É caso para dizer: quem nunca pecou que atire a primeira pedra.

Mas o caso não acaba aqui. A Samsung desculpa-se e retira o vídeo e Pepa Xavier ganha mais uns minutos de fama ao ser convidada para uma entrevista na SIC. E, agora sim, apetece-me puxar dos galões do moralismo. O que aconteceu durante cerca de cinco minutos é tudo menos jornalismo. Na verdade, hoje em dia, a definição de notícia, de informação, já não é o que era e qualquer vídeo com mais de 5000 visualizações ou comentários nas redes sociais é um “fenómeno” e tem de se explorar ao máximo, dê por onde der.

Numa guerra de audiências vale tudo. Pão e circo pede o povo. Pão e circo é dado ao povo. Por isso vale a pena perder tempo de antena com questões como: “E a Filipa é assim mesmo, fala daquela maneira?”, “Estava disponível para ajudar uma pessoa desempregada, e que precise de ir a uma entrevista de emprego, a vestir-se bem?”. Really? Really?
Estranho país este…

Texto de Joana Areia

Post Scriptum: Em jeito de nota final, quero deixar o meu agradecimento aos preguiçosos, fundadores deste magazine, pelo convite e pela oportunidade que me deram. Por fim, um muito obrigada também a todos os que visitaram a página e viram o que de muito bom se faz por aqui. Fica o conselho: usem e abusem, que a Preguiça deixa!
(Publicado em 17 Janeiro 2013)

Modo Preguiça

Hoje entrei em modo preguiça. São 14h04. Lentamente, a pálpebra do olho direito começa a abrir. Tímida, a esquerda dá início ao mesmo processo. Faz-se luz. Devagar, o corpo, ainda mole, senta-se na cama. A perna esquerda toca o chão. A direita repete o feito, logo seguida de um pedido de licença para se pôr em andamento. Braços caídos, tronco dobrado, o corpo arrasta-se.

Sabe-se, da fonte segura que é o senso comum, que a preguiça é avessa a actividades, sejam elas físicas ou mentais. Contudo, é calculista. Pensa antes de agir, da forma que lhe for mais conveniente, para que o que quer que faça não envolva esforços.

Como tal, temos de a combater e contrariar. Membros inferiores direitos, membros superiores esticados ao máximo acima da cabeça e toca a espreguiçar. Feito.

E o dia começa agora. Comigo tenho apenas uma folha branca, pronta para receber todas as ideias que me passam pela cabeça, e uma caneta preta, preparada para as pôr em prática.

Letra após letra, palavra após palavra, frase após frase, na simples folha incolor começam a surgir pensamentos, transformando-se numa folha repleta de formas, de riscos e rabiscos, de palavras direitas que dão origem a linhas tortas, de salpicos, de borrifos, de respingos. É difícil parar. A vontade de escrever é incessante. A mão não larga a caneta. Jamais!

E tudo isto graças a ela, a preguiça. Porque me levou a ter vontade de a contrariar. Hoje casei-me com um dos sete pecados capitais e que bem que me sinto! Não basta praticá-la, há que prestar-lhe devoção.

Obrigada, preguiça. Sê bem-vinda!

Texto de Joana Areia
(Publicado em 24 Janeiro 2013)

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